Arquivo do autor:Mauricio Andreoli

A noite

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Engraçado como sempre me senti bem de noite. Desde pequeno, desenhando até tarde… como se ela me inspirasse! Por causa desta cumplicidade nem tinha ideia ainda de como a noite influenciava as mentes mais jovens. Demorei a sair, não concebia pedir o dinheiro suado de minha mãe para sair… para sequer beber. Até poder garantir minhas necessidades e meus vícios se passou algum tempo. Comecei a ser um amante da noite meio tarde em minha vida, já com 22 anos passados. Já era velho demais para cair no seu canto de sereia, mas inquieto o bastante para aceitar seus desafios. Topei alguns… abri mão de outros… me mantenho vivo neste meio termo.

De lá pra cá já se vão alguns anos! Mais encontrei do que perdi amigos na noite. Alguns bons o suficiente para terem seu lugar ao sol… já outros insistentemente me encontrando nos desmandos da madrugada. A noite me ensinou a beber, a chegar em mulher, a falar mal da luz e a conhecer seus cúmplices. Alguns só querem se esconder do dia, já outros querem se esconder da vida. Incrível como as pessoas se desnudam depois do pôr-do-sol. Mas ao contrário da crendice popular não são gatos pardos! São almas com todas as cores possíveis: o bege da apatia… o cinza da culpa… o vermelho da dor e até mesmo o dourado do amor e o azul da esperança!

Alguns dormem cedo demais ou vêem TV demais e envelhecem sob a luz sem sequer perceberem o imenso universo que se esconde em uma simples sombra de noite de lua cheia.

Amante, madrasta, ingrata, vadia… cada um rotula a noite como lhe convêm… mas ninguém diz que esta morta. Dizem que é na luz que crescemos, mas no nosso âmago temos a certeza que é a cada noite que renascemos.

Quando a referência vira o trabalho

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Dia destes vendo um anúncio para vaga de Diretor de Arte me deparei com a seguinte exigência:

“Buscamos alguém que não fique perdido quando cai a internet!”

Para quem é das antigas o pedido chega a ter um gostinho de vingança pois deixa claro que a internet acabou se tornando uma muleta ao invés de ser vista como ela realmente deve ser encarada: mais uma ferramenta – como outras tantas – no apoio ao processo criativo.

Desde sempre, estar atento e saber onde buscar as melhores referências é fundamental para ter um produto criativo diferenciado. Na criação pré-internet para se ter referências do que acontecia de importante fora do nosso quintal a coisa era bem complicada: era preciso importar anuários e revistas, assinar a Archive, conseguir as fitas oficiais de Cannes com o short-list dos filmes e ainda aproveitar aquela viagem (sua ou de algum amigo ou parente) para fora do Brasil para trazer quilos de material gráfico (desde folhetos e revistas até embalagens).

Hoje, toda e qualquer referência está a um clique de nós. Claro que isso é uma maravilha quando bem usado, mas com a facilidade veio também a dependência e a internet acaba se tornando a única ferramenta de referência para muitos criativos. Assim, algoritmos de relevância, trending topics e outras formas de categorizar a informação na internet acabam “ditando” e “padronizando” as referências que chegam até estas pessoas. Nestes casos “não saber procurar” acaba sendo pior do que “não procurar”.

Por isso é importante ter critério para escolher e usar as referências necessárias sem perder o foco. Em alguns trabalhos esta perda de foco acaba fazendo da referência o trabalho em si. E uma situação destas pode acontecer até mesmo em corporações com vasto know-how em sua área como aconteceu com a Rede Globo na abertura de suas duas últimas novelas das 21h, Amor à Vida e Em Família (clique nos nomes para ver uma análise detalhada de cada abertura no blogtelevisual.com). No primeiro caso se contrata um profissional para ele reproduzir exatamente um trabalho autoral anterior. Já no segundo a criação se baseou (sic) no template de vídeo comercial de uma empresa australiana, que pode ser adquirido por meros 30 US$ por qualquer pessoa. Isso para não comentar quando há malícia e o uso mal-intencionado de referências como mostrado no site www.logothief.com que pesquisa e compara exemplos reais do uso em 100% da referência, ou seja, escancara a “chupada”.

Por tudo isso achei interessante a exigência da agência, pois é preciso primeiro pensar o trabalho de maneira mais pessoal e independente, analisando as necessidades reais do briefing e criando uma espinha dorsal para o trabalho. Após se ter esta base fica muito difícil uma referência sobrepujar o conceito original.

No final das contas ainda acredito piamente que nada melhor do que um tempo a sós com a folha A4 e um lápis para dar o pontapé inicial em qualquer processo criativo.

O bom senso que falta na CBF

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“… informo que foi respeitado um minuto de silêncio pelas vítimas da tragédia das Filipinas!”
Francisco Carlo do Nascimento – Árbitro de Grêmio X Vasco

“… homenagem antes do início da partida através de um minuto de silêncio ao Sr. Elder de Lima Chagas, conforme solicitação do documento apresentado pela Federação Bahiana!”
Paulo Godoy Bezerra – Árbitro de Vitória x Cruzeiro

“… foi respeitado um minuto de silêncio em homenagem póstuma ao Sr. Mauricio Assunção, genitor do presidente do Botafogo!”
Emerson de Almeida Ferreira – Árbitro de Botafogo x Portuguesa

Acima apenas 3 das citações feitas em súmula por árbitros que atuaram na 34ª Rodada do Campeonato Brasileiro de 2013. Todas dentro de contexto em circunstâncias normais, mas o que ocorreu nos jogos da rodada foi tudo menos normal. Nesta rodada o Bom Senso F.C. promoveu uma manifestação pacífica a ser feita no ínicio das partidas e que consistia nos jogadores ficarem por 30 segundos de braços cruzados. Nada de discurso político, ações agressivas ou atos excessivos. Apenas a representação da força que um cruzar de braços tem.

Nada acontece.

E quem dirige o nosso futebol sentiu o baque. Sentiu a ponto de organizar uma campanha de desinformação e ocultamento envolvendo a Comissão de Arbitragem e as Federações Regionais para evitar que as manifestações do Bom Senso F.C. ganhassem reconhecimento oficial pelo menos em documentos da CBF. Assim todas as súmulas relataram as partidas como se nada tivesse acontecido.

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Ignorar e evitar que uma ação contrária aos seus interesses ganhe contornos oficiais é uma antiga tática que o atual presidente da CBF (e também antigo Governador Biônico da ditadura em SP) conhece muito bem, afinal manter o assunto a margem dos canais oficiais favorece o discurso de que ainda não há um posicionamento formal dos descontentes e que por isso não há como se posicionar perante suas propostas.

Assim os detentores dos canais oficias se colocam na posição de estarem sempre com as “portas abertas” para o debate quando o que querem na verdade é ganhar tempo e achar meios de sufocar o movimento contrário.

Para quem está no poder este tipo de manobra se torna essencial quando as pessoas que compõem o movimento contrário são peças importantes no cenário geral de seus interesses. Afinal não há futebol sem jogadores e a CBF sabe disso. Não há como substituí-los e enfrentá-los seria abrir um debate que não é de seu interesse e muito menos de sua maior associada, a Rede Globo, que é detentora dos direitos de transmissão do futebol no Brasil.

O que a entidade parece ignorar é que a informação já não depende mais exclusivamente de canais oficiais para sobreviver e ser passada adiante. A internet com seus fóruns de discussão, redes sociais e blogs ou meios de comunicação digitais independentes da mídia de massa replicaram a manifestação do Bom Senso F.C. a exaustão nos últimos dias. A manobra das súmulas deixa claro que os cartolas da CBF querem ganhar tempo a todo custo, pois faltam 3 rodadas para o fim do Brasileirão e eles acreditam que o movimento deva se esvaziar logo que começar o recesso de final de ano no futebol.

Mas até o calendário joga contra a CBF e sua pressa, pois as últimas 3 rodadas serão jogadas apenas aos fins de semana, deixando muito tempo para os líderes do Bom Senso F.C. se mobilizarem entre uma partida e outra. E o grupo já mostrou sua capacidade de mobilização até mesmo diante de fatos inesperados como a ameaça do árbitro Alicio Pena Júnior de dar cartão amarelo a quem cruzasse os braços em protesto no jogo de São Paulo X Flamengo.

O que se viu foi histórico.

Quando a modernidade era pobre

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Não pretendo falar sobre o avanço do Flat Design (tendência que nasceu nas interfaces digitais para usuários) e nem sobre como ele vem migrando para outros meios do design. Gostaria de falar sobre as percepções que o Flat Design desperta, e nisso é interessante ver como a opinião das pessoas muda.

Se apresentada a um cliente há pouco tempo atrás, uma peça elaborada com os moldes mini- malistas do Flat Design seria sumariamente reprovada e severamente criticada por ter um design “pobre” – quando digo cliente, não falo de multinacionais ou empresas com departamentos de marketing trabalhando em parceria com suas agências em cima do que o consumidor “precisa” e não o que ele “quer”. Quando digo cliente falo do cliente médio, sem estrutura ou planejamento, que simplesmente responde a demanda e que é incapaz de aceitar uma nova ideia ou perceber que a agência de publicidade é uma parceira e, principalmente, se recusa a perceber que o consumidor pensa.

Bom, para este cliente (que deve representar perto de 90% dos anunciantes) não importava a correta defesa, a pertinência ou o conceito embutido na proposta. O visual era tido como “pobre” e ponto. De volta à criação e desta vez com uma foto, hein!!!

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Era, e infelizmente ainda é, a época de um jargão – agora, ao meu ver – famigerado: “1 imagem vale por 1000 palavras”. É incrível como este raciocínio vai do 8 ao 80. Ajudou a criar peças belíssimas, mas seu uso sem critério sentenciou quase a morte o anúncio All Type, afinal – e aí cabe outro jargão deplorável – “ninguém vai ler isso”.

Por algum tempo estes dois mantras ditaram regras que sentenciavam propostas mais ousadas à gaveta de seus criadores. Uma imagem bonita (preferência para foto do produto ou pessoas sorrindo), uma frase curta (que na maioria das vezes deveria “vender” 3 ou 4 benefícios, mas ainda assim curta) e o logotipo o maior possível eram a receita da propaganda “certa”.

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New Apple iOS 7 features are displayed on screen during Apple Worldwide Developers Conference (WWDC) 2013 in San Francisco

Já hoje em dia a coisa é um pouco diferente. Grandes empresas já usam e consolidam o uso do Flat Design. Agora, aquele cliente médio já se acha com expertise para exigir algo moderno, inovador e diferenciado… algo tipo “menos é mais”… algo como o “tal do Flat Design”.

Os novos velhos valores de Star Trek

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A ansiedade para ver a sequência de um filme que se gostou é normal. Agora, para mim, quando se fala de Star Trek a ansiedade vai a lugares onde nenhum homem jamais esteve.

Brincadeiras a parte depois do sucesso do reboot da franquia no cinema em 2009 a expectativa em torno de Star Trek – Além da Escuridão era palpável. Todos queriam ver a evolução da amizade reescrita entre Kirk e Spock e suas consequências, pois até a chegada de J.J. Abrams os personagens já estavam estabelecidos e tinham uma amizade solidificada. Nunca se explorou a fundo um ”jovem” Kirk e um “jovem” Spock e as escolhas passionais que a juventude ocasiona.

E é por ai que o filme começa. Um cabo rompido gera uma situação de vida ou morte que leva há uma reação inadmissível para um capitão da Frota Estelar e lá se vai a 1ª Diretriz.

 1ª Diretriz – É proíbido a todas as naves e membros da Frota Estelar interferir com o desenvolvimento normal de uma cultura ou sociedade. Essa diretriz é mais importantes do que a proteção das naves ou membros da Frota Estelar. Perdas são toleradas se forem necessárias para a observação dessa diretriz.

Aqui vale uma ressalva sobre como o diretor retratou a aparição da Enterprise para uma cultura primitiva. Ao invés de usar um plano geral que mostrasse toda a nave saindo do oceano, J.J. Abrams enquadrou a cena quase do ponto de vista dos habitantes do planeta, que obviamente a veem como uma divindade. Um detalhe apenas, mas que mostra como o diretor lida com um cânone da franquia e exemplifica na prática como a quebra da 1ª Diretriz pode criar a imagem de “Deuses” e contaminar culturas primitivas sem apelar para discursos reflexivos.

HH

E, neste segundo filme J.J. Abrams acerta em outra coisa, álias duas: o vilão e o ator que o interpreta. A atuação de Benedict Cumberbatch confere uma passionalidade raivosa impressionante à nova versão de Kahn. Os atos do vilão são viscerais e condizem exatamente com o que se espera de um ser criado para a guerra e que descarta sem compaixão todos que se opõe aos seus objetivos. Esta reinterpretação do maior vilão da franquia até pode dar argumentos para alguns críticos, mas o raciocínio segue a base do primeiro filme, onde uma aventura no espaço-tempo rearranjou tudo o que se sabia sobre a Enterprise e sua tripulação. Esta é uma abordagem  muita usada nos quadrinhos na reconstrução de personagens, mas que vai permitir aos roteiristas separar o joio do trigo da cronologia clássica e reinventar a franquia para uma nova geração.

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É este respeito e conhecimento com elementos da franquia que consegue agradar muitos dos fãs antigos – óbvio que os treekkies xiitas sempre acham algo que não condiz com a série original. Já os novos fãs são fisgados pela ação e a nova dinâmica na relação de amizade entre Kirk e Spock, visto que nos roteiros com influência de Gene Rodenberry imperava a união incondicional da tripulação perante os desafios externos e as decisões tomadas sempre prezavam pela alta dose de racionalidade, o que muitas vezes gerava uma visão mais contemplativa e monótona nos roteiros dos filmes, pois até mesmo a revolta e a indignação acabavam por serem planejadas e metodicamente colocadas em prática, como em Star Trek Insurreição por exemplo.

Para J.J. Abrams os personagens não possuem esta visão e a certeza de sempre tomar a atitude certa para cada momento e isso fica explicito em uma fala do capitão Kirk: “- Eu não sei o que fazer ou como fazer… eu só sei o que eu posso fazer!”

Para mim é particularmente emocionante ver uma Entreprise e sua tripulação em seus primeiros anos juntos, onde todos aprendem na prática os valores de camaradagem que Gene Rodenberry sempre pregou na série clássica.

Agora, que venham os Klingons de J.J. Abrams!