Arquivo do autor:Mauricio Andreoli

Cheiro de golpe

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Ato 1:
Como todos os anos a passagem de ônibus em Porto Alegre aumenta indo a R$ 3,05.

Ato 2
A população – notadamente os estudantes – organiza passeatas e atos de protesto contra o aumento.

Ato 3
Os vereadores  Pedro Ruas e Fernanda Melchiona do PSOL entram com uma ação cautelar e obtém liminar judicial caçando o aumento.

Ato 4
Em mais uma tentativa para a redução da inflação o Governo Federal isenta as empresas de transporte urbano do PIS e CONFINS incidentes sobre o cálculo da passagem.

Depois disso tudo vem chegando em Porto Alegre o ato final desta peça, quando o Ministério Público – a julgar pelas manifestações feitas na imprensa – deve pedir a cassação da liminar e reiniciar o processo do cálculo da passagem. Na prática isso quer dizer que voltaremos às discussões de Maio de 2013 quando transitava na prefeitura de Porto Alegre o aumento pleiteado pela empresas de transporte coletivo, mas com um novo ingrediente na fórmula:
a isenção dos impostos.

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Quer dizer que não basta a passagem de ônibus em Porto Alegre ter um aumento acumulado de 670% entre 1994 e 2012 contra aumento do INPC de 272% registrado no mesmo período. Não basta o serviço se deteriorar ano a ano. Não basta as empresas usarem um método de cálculo fraudento levando em conta parte da frota que nem entra em serviço para justificar os seguidos aumentos. Não basta as empresas operarem em um imoral Sistema de Permissão de Serviço sem nunca terem sofrido uma licitação pública. Não… nada disso basta!

E conforme for o ato final poderemos estar vendo um novo golpe contra o bolso da população se a passagem voltar a aumentar, mesmo com a isenção dos impostos.

E o malandro deu a letra

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“Esta palhaçada vai piorar quando faltar um ano e meio para o mundial. O pior está por vir, porque o governo irá viabilizar as obras emergenciais, que não precisam de licitações. Por isso, estamos fadados a assistir ao maior roubo da história do Brasil!”
Romário

Pode ser que com estas palavras Romário tenha feito seu primeiro (talvez único) gol memorável como parlamentar. Isso foi publicado no seu Facebook em março de 2012, mas o tempo e as atitudes do Governo só vem confirmando sua declaração.

Justo ele, que mais do que ninguém soube se aproveitar das fraquezas da defesa adversária, e por isso mesmo pode constatar: o povo brasileiro tem uma defesa medíocre ante a voracidade dos atacantes corruptos de nosso Governo e da FIFA. Os números estão ai a nos provar a realidade destas palavras. Orçamentos pulam de 600 milhões para 1,2 bilhão em meros canetaços e muitos dizem que isso é normal em obras deste porte. É incrível a facilidade com que a fantasia da retórica sobrepuja a realidade da matemática. Algumas vozes até se levantam e tentam fazer a maioria ouvir a razão, mas acabam abafadas por manobras de uma imprensa conivente e embevecida por seu papel neste teatro, pra não dizer completamente vendida. Neste cenário se cria a oportunidade, e se há oportunidade há ladrões, e isso temos de sobra, seja em gabinetes parlamentares ou nas diretorias de empresas e entidades.

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No final o povo brasileiro vai acabar como alguns zagueiros vencidos por Romário. Tontos, caídos no gramado, vendo o goleiro ir pegar mais uma bola no fundo do gol e se perguntando como isso aconteceu.

Confusa simplicidade

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É possível uma marca aparentemente confusa passar um posicionamento claro e ajudar uma multinacional dona de mais de 400 marcas a se expressar?

Para a Unilever a resposta é sim, pois mesmo após 9 anos do seu lançamento a marca da empresa ainda instiga as pessoas e não raro a gente se pega de pé no corredor do supermercado “decifrando” os vários símbolos que a compõe. Apesar de lançada em 2004 o gene inicial do que seria a nova marca nasceu no final dos anos 90 quando o mundo viu a mudança de comportamento das pessoas que passaram a procurar um modo de vida mais saudável.

Este movimento pela saúde resultou na valorização que as pessoas passaram a dar a variedade e qualidade dos produtos que consumiam e a percepção do tempo como um bem valioso. Estas novas exigências juntamente com preocupações mais amplas como meio-ambiente e uma reformulada consciência de “Marca Global” fizeram a Unilever repensar seu próprio negócio, baseando suas novas metas em um crescimento sustentável, tanto da empresa, como do meio-ambiente e da sociedade num futuro próximo. Este pensamento não é por ufanismo ou porque eles são “legais”, mas porque suas diversas marcas sempre vão precisar do meio-ambiente para colher matéria-prima e de consumidores dispostos a investir em seus produtos.

Com isso em mente o foco das marcas Unilever passaria a ser a entrega de produtos que ajudassem as pessoas a terem uma vida mais plena em termos de alimentação, higiene e cuidados pessoais. Com o processo já em andamento se iniciou a fase que iria exteriorizar e unificar plenamente esta postura com o lançamento da nova marca. Após a estranheza inicial começou uma relação de curiosidade e descobrimento de cada parte da nova marca, que englobou diversos símbolos em sua forma explicitando a maneira multifacetada com que a empresa atinge seus consumidores, afinal, com a nova marca cada linha de produto ou valor da empresa se encontrava representado visualmente de alguma forma.
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Conceituamente tudo estava presente, restava saber se a nova marca funcionaria num mundo que tendia a simplificar cada vez mais a comunicação com receio de que o consumidor não assimila-se conceitos complicados

Gosto da marca apesar de achar que alguns símbolos e descrições são conceituais e “abertos” demais. Nada que desabone o resultado como um todo, afinal o símbolo que pouco diz para mim aqui no Brasil pode ser extremamante relevante para outra pessoa na França e é esta leitura global que deve ser valorizada no caso.

O fato é que os símbolos juntos se completam e formam um conjunto harmônico, passando uma ideia de “eu sou tudo isso”. E já que a marca pode ser vista diariamente ao se beber um suco, tomar banho ou até mesmo lavando roupas ela pode abranger um conceito maior para cada pessoa e dizer “eu sou tudo isso em sua vida”.

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O traço orgânico e a simplicidade das formas tornam  o universo de produtos e conceitos da Unilever acessível a qualquer pessoa de forma lúdica apesar do excesso de elementos que muitos acham que complica a marca. Além disso os símbolos podem ser usados separadamente, criando ferramentas que possibilitam a Unilever atingir seus funcionários com a mesma intensidade de envolvimento.

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Alguns analistas viram o reposicionamento como uma mera sequência da estratégia anterior – Caminho para o Crescimento – e o entendimento da nova marca de difícil compreensão mas o fato é que desde que eles foram implantados a Unilever vem contabilizando lucro operacional de 10 a 15% ao ano em média além de ajudar a desburocratizar e humanizar os métodos internos a nível mundial.

O gol do futuro

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O costume já existe há tempo, mas era considerado coisa de boteco ou bar “pé-sujo” e portanto ficava restrito a periferia e locais menos favorecidos. Mas com a prática ganhando cada vez mais adeptos a cada 4 anos durantes as Copas do Mundo o hábito de ver jogos de futebol se estenteu até a pubs e bares mais refinados. Hoje até rodadas de campeonatos regionais são vistas regadas a chopp em bares.

E com o hábito vieram as regras de convivência e umas delas está em xeque desde o início das Transmissões Digitais: o radinho ou fone de ouvido durante os jogos.

Como nas Transmissões Digitais há um delay médio de 5 segundos (mas já vi delays com mais de 7 segundos) quem acompanha o jogo pelo rádio fica “sabendo” do gol antes. Os sem noção comemoram, outros se seguram, mas o fato é que quem usa o fone de ouvido acaba virando “referência” e cada jogada de seu time fica marcada por uma discreta espiadela no carinha com fone. Se ele se alterar, mesmo que esboçando o mínimo sorriso, feito… é gol… se continuar impassível seeeeegue o jogo.

Falo isso porque tem um bar perto da minha casa onde gosto de ver os jogos e, realmente, fica muito chato dois ou três torcedores gritarem gol antes de se ver o próprio chute pela TV. Até porque a cena seguinte é patética: você não sabe se pula e comemora junto ou se vê a jogada até o final pela TV. Geralmente você acaba se perdendo entre um e outro.

Há várias desculpas usadas pelos que defendem o uso dos fones, mas esta atitude acaba privando o prazer dos demais em ver e comemorar os gols do seu time em “tempo real” por assim dizer. Alguns lugares proíbem o uso de fones durante os jogos, mas são poucos pois uma “proibição” sempre é mal vista. Acredito que o que falta é bom-senso em perceber que se está estragando a diversão de outras pessoas, pois mesmo sendo um hábito particular é preciso pensar que se esta em um ambiente com mais pessoas e por isso afetadas pelos seus atos.

No fundo acho a atitude meio egoísta e acabo fazendo uso de outra prerrogativa em bares: a mesa é de quem chegar primeiro. Por isso prefiro que não usem os fones se estiverem na minha mesa. Até me atendem às vezes, mas sempre acabo passando por indelicado e no final um tiozinho lá no fundo do bar acaba gritando “gol”  mesmo assim.

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Que povo é esse???

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Sim! O Brasil é grande e pode ser potência mundial… um dia, talvez.

Antes disso temos que mudar a base que mantém a nossa sociedade entre as mais corruptas do mundo: nós mesmos.

É preciso saber que a pessoa que é eleita para um cargo público é a mesma que era antes disso. Não adianta cobrar do ” Senador Fulano ” honestidade, integridade e ética se o ” Cidadão Fulano ” já não as tinha. Se o ” Cidadão Fulano ” enganava no troco, subornava o policial, procurava levar vantagem em tudo, cobrava comissão de 20% e não queria nada com nada ele vai continuar assim após a eleição. E, infelizmente, o “Cidadão Fulano ” é a maioria entre os quase 200 milhões de brasileiros e eles só levam em conta um critério no seu dia-a-dia: defender o seu custe o que custar, mesmo que isso implique em faltar com a ética, promover falcatruas e fazer uso da velha “Lei de Gerson”.

A corrupção não é mais restrita aos políticos e empresários. Ela já é endêmica e está em todas as faixas sociais. Basta prestar atenção: é difícil passar um dia em que não vejamos ou tomemos conhecimento de alguém, até mesmo um conhecido nosso, levando vantagem indevida em alguma situação. E não é apenas com os outros, nós mesmos temos as nossas falhas, nossos falsos atestados médicos, as “colas” na faculdade, os downloads piratas… e por aí vai. A nossa degradação moral como povo corre a olhos vistos e muitos se perguntam onde é que mudamos, onde começamos a trilhar este caminho? De quem é a culpa?

Os militares jogam a culpa na ascensão da esquerda populista ao poder. Os sociólogos veem o motivo no crescimento econômico de uma classe social que historicamente não teve acesso à educação formal e à cultura. A esquerda culpa o neoliberalismo. Enfim, dedos para apontar um novo culpado a cada dia é o que não falta.

“No Brasil quem
tem ética parece anormal
!”
Mário Covas

Infelizmente o “Brasil Malandro – onde tudo se dá um jeitinho” é anterior a tudo isso. O que estamos vendo é apenas o ápice de um longo processo histórico. Hoje chegamos ao luxo de quase eliminar a figura do corruptor, afinal ele vai se tornando desnecessário na medida em que quem se elege já procura por si mesmo os meios para desviar alguma verba. Não é mais necessário alguém te incentivar a fazer algo imoral ou ilegal. Está no nosso DNA.

E o acesso a informação e a velocidade com que estas situações se propagam apenas nos permitem acompanhar as mazelas morais do Brasil quase em tempo real e dizer que apenas seguimos o exemplo que vem de cima é purista e covarde demais.

A cada nova eleição analistas políticos nos alertam para cobrarmos de quem elegemos os valores éticos e morais que um cargo público exige, mas como fazer isso se quem foi eleito é apenas o reflexo de quem votou? Será que aguentaríamos esta autoanálise? Teríamos a coragem de nos olhar no espelho e ter a lucidez de nos vermos como realmente somos como povo e reconhecer que no fundo somos muito parecidos com os nossos políticos?

Se aceitássemos este desafio este seria apenas o inicio da caminhada para repararmos décadas de permissividade e corrupção. Só depois disso é que teríamos a legitimidade de querer ocupar nosso lugar no mundo.