Arquivo da categoria: Trampo

O “Princípio da Paradoxalidade de Deoclides” no comercial do Banco Itaú

[Texto publicado originalmente no site Perdi Essa Aula]

Rolou esses tempos uma divertida discussão entre meus amigos não-publicitários lá no Facebook, a partir da minha opinião sobre o vídeo abaixo – um comercial institucional de 2 minutos do Banco Itaú, mostrando a reação de crianças frente a objetos tecnologicamente obsoletos. Estou trazendo o bafafá aqui pro Feijão, pois acho que pode render um belo quebra-pau ideológico. Portanto, a quem interessar possa, soa o gongo:

Quando criança, morei num condomínio cujo odioso síndico se chamava Deoclides – um veio ranzinza (pleonasmo?), que tinha como missão de vida dedurar aos pais da gurizada cada travessura que aprontávamos. As mínimas coisas que fazíamos o incomodavam, mesmo que fossem típicas da curiosidade e inocência infantis. Certo dia, fui rotulado por ele como “um dos cabeças da gangue” (???), sendo o ápice dessa história o dia em que, na presença de toda a “turminha do barulho”, o Veio Deoclides puxou a cinta e ameaçou o outro cabeça da gangue com o antológico enunciado: “Se o teu pai não te deu educação, eu vou dar – isso aí é falta de laço!”. Felizmente, o anjo da guarda das crianças bateu ponto, injetou uma dose de bom senso à cena e impediu que o absurdo fosse consumado.

O tempo passou, e por mais paradoxal que possa parecer, me vejo hoje, aqui, perpetuando o legado do finado Veio Deoclides, profundamente incomodado com essa travessura da gangue de marqueteiros do Itaú que, segundo minha percepção, pisou e sapateou em cima dos sentimentos de uma geração inteira. De cinta em punho, venho dedurar a vocês o equívoco contido nessa mensagem publicitária tão fofucha e descolada para uns, porém deselegante, desrespeitosa e inadequada para outros. Ranzinza, eu? Vejamos então…

“O mundo está mudando cada vez mais rápido, e o Itaú acompanha essas mudanças”. Até aqui, tudo bem – são duas verdades aceitáveis. O problema, a meu ver, não está no conceito, mas na forma. Para mostrar que o Banco vem se modernizando constantemente (e exemplificando isso ao apresentar nesta campanha sua interface específica para Ipad), optou-se por debochar de antigos ícones da tecnologia – ridículos em comparação de tamanho e funcionalidade com os hardwares atuais – para ilustrar a importância de evoluir e acompanhar as necessidades das novas gerações. OK, compreendi a ideia. Mas confesso: me doeu ver o escárnio da piazada em cima do Atari, da vitrolinha, da Polaroid, do videocassete, do gravador… – saudosos produtos que vi nascer (e morrer). Sonhos de consumo da minha mais tenra infância, responsáveis por alguns dos momentos mais marcantes e emblemáticos da minha vida, da vida das crianças do meu antigo condomínio e, com certeza, de muito mais gente. Fiquei chocado, triste, revoltado em ver as lindas lembranças do meu passado sendo esculachadas oficialmente por pequenas e ingênuas marionetes a serviço da máquina de marketing do Itaú.

As crianças do vídeo são encantadoras? Sem dúvida. Imagino o tsunami de “uóóóóóóins” ali na hora do “pelo espetinho!“. Inocentes reações perfeitamente compreensíveis, de quem não faz a menor ideia da importância sócio-histórico-cultural de tudo aquilo que estão destruindo. Porém, para garantir o suposto humor do comercial, faltou sensibilidade aos criadores para evitar a gafe de rotular minha geração como ultrapassada. Numa época em que uma linha telefônica custava R$ 5.000,00, fui ter na minha casa um telefone igualzinho àquele amarelo do vídeo apenas após muito sacrifício e trabalho duro dos meus pais. Numa vitrolinha similar à que o guri está estragando ao raspar a agulha na mesa, conheci e me emocionei com alguns dos clássicos da Disney, narrados para crianças numa coleção de disquinhos coloridos. Uma câmera Polaroid igualzinha àquela ali registrou a emoção da vitória de um grande amigo meu num sorteio improvável de ser vencido, dando a ele, entre centenas de milhares de participantes, um Genius (brinquedo que parecia vir de outro planeta, e que sem dúvida também seria esculhambado nesse vídeo, se houvesse mais tempo). Num disquete de 5¼ como os que foram destruídos pelos representantes da Geração Y, carreguei o MS-DOS e o Wordstar que me possibilitaram escrever minha Monografia (o atual TCC) na faculdade, há 17 anos. E do Atari prefiro nem falar, já que pelo preço altíssimo, nunca tive um (apenas o genérico “Dactar II“, anos após a febre inicial dos videogames), sendo obrigado sempre a pedir arrego aos amigos abonados para jogar na casa deles – trauma de infância mal-resolvido, que assou meu cérebro e meu coração na hora que a guria o chamou de churrasqueira… “isso aí é falta de laço em quem criou esse comercial!“, berrou na hora o Deoclides dentro de mim!

“Mimimis” à parte, fica a dica sobre a dificuldade de agradar a gregos e troianos em campanhas publicitárias. Minha manifestação de repúdio neste caso foi mínima, mas e se sou alguém que resolve comprar de verdade a briga e gero outro case/viral como o da tal Academia Runner (provavelmente fake, mas válido enquanto fábula), que já virou até vídeo motivacional (abaixo), na mesma linha do Filtro Solar “do Bial”?

Não sou saudosista, como alguns que ainda preferem escrever textos em Olivettis barulhentas a usar o Word. Também acompanho “as rápidas mudanças do mundo” como o Itaú, com a diferença de respeitar esses produtos-mártires com gratidão por todo o serviço prestado em prol do progresso. Ao glorioso Banco Itaú, boa sorte na captação de novos clientes, afinal de contas é tudo uma questão de defender seus interesses. Como o meu, de preservar intactas as memórias de um período da minha vida em que fui muito feliz, e como fazia o pobre e sábio Deoclides, que – hoje percebo – apenas defendia seu justo direito de envelhecer com um pouco de dignidade e sossego…

Back to basics

Tem se percebido que algumas empresas e seus novos logotipos ou até mesmo empresas nos quais os logotipos passaram por um processo de rebrainding estão se tornando mais limpos e mais simples. Alguns seguem os princípios de design do Estilo Internacional Suiço que dita que “a forma segue a função” onde qualquer ornamento que não tiver a sua relevância clara e objetiva se torna dispensável.

Dentro desta ótica a Microsoft vem desenvolvendo a interface Metro e agora lança sua nova marca para o Windows 8. Os efeitos 3D, transparências e outros artifícios gráficos (alguns bem típicos de sua época de lançamento) deram lugar a uma linguagem universal, clara e objetiva.

Segundo Sam Moreau – Diretor de Experiência do Usuário para o Windows – “O Windows 8 é uma reimaginação completa do sistema Windows, por isso nada foi deixado de lado, incluindo o logotipo. O logo do Windows tem força e é largamente reconhecido, mas percebemos que o novo logotipo deveria refletir o novo estilo da interface Metro e também seria uma oportunidade de reconectar com as características poderosas das suas encarnações passadas”.

Mas apesar de sua aparente simplicidade basta olharmos uma simples aplicação em transição do novo logotipo que percebemos a sua funcionalidade e sua importância dentro de um projeto de interação mais amplo com o consumidor. Um projeto de nível mundial e que abrangerá vários meios e substratos, deve primar em sua essência pela simplicidade como base de raciocínio, só assim a uniformidade estará plenamente garantida em todos os níveis que o novo logotipo irá atuar.

Durante o processo com a Pentagram a Microsoft reconheceu que o logotipo original foi sendo o reflexo que os consumidores imaginavam a cada novo sistema lançado: mais poderoso e com mais recursos.

Agora, ao tirar os excessos a Microsoft rompe com este raciocínio e acredito que a nova cara do Windows 8 nos remeta realmente ao básico.

O computador é apenas uma ferramenta e cabe a imaginação de cada um qual janela deve ser aberta.