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ROGUE ONE: A VINGANÇA DOS FÃS DE STAR WARS

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Um ano depois de O Despertar da Força dividir opiniões mundo afora, Rogue One (ou “R1”, pra encurtar e facilitar a escrita) chega para sacramentar a promessa da Disney de um revezamento entre sequências da saga original (episódios 7, 8, 9 e só Deus sabe quantos mais) e histórias avulsas dentro do vasto universo de Star Wars. Ou seja, uma fartura de filmes capaz de desafiar as exigências e bolsos dos mais vorazes fãs, bombardeados por novos elementos, personagens, informações, especulações e – claro – milhões de produtos. Resultado: já tem gente reclamando e carregando nas críticas, dando verdadeiros tiros de Estrela da Morte na intenção de dizimar os planos que os herdeiros do tio Walt têm para o futuro de Star Wars. Pois a este império de chatonildos, a este exército de “intelectuais”, que oprime a galáxia com o poder sombrio do mimimi, eu brado de cima das áridas colinas de Jeddah com meu blaster erguido: “I REBEL!”.

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Vivi a seca entre O Retorno de Jedi em 1983 e a edição especial do “Velho Testamento” (a trilogia original, episódios 4, 5 e 6) com novos efeitos em 1997, período em que, sem internet (sim, já existiu), os fãs vagavam a esmo no deserto da desinformação, atrás de qualquer migalha que pudesse saciar a paixão pela saga. Não é agora, quando finalmente a Força está com a gente, que iremos nos entregar sem luta. Rápido, não temos tempo a perder – suba a bordo do meu textão sobre R1 e me ajude a roubar os planos de quem não teve infância e quer acabar com a nossa diversão! BORA!!!!!! [nem preciso dizer, mas enfim: ******FESTIVAL MUNDIAL DE SPOILERS DE ROGUE ONE ABAIXO!*****. VÁ VER O FILME PRIMEIRO E VOLTE AQUI DEPOIS PRA CONFERIR O QUE EU ACHEI]

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E pra já deixar bem claro logo de cara: diferentemente do Episódio 7, EU ADOREI ROGUE ONE – me diverti, me emocionei e o mais legal de tudo, me SURPREENDI. Não estava esperando que esta despretensiosa aventura fosse, na verdade, o EPISÓDIO 3.9 DA SAGA STAR WARS! Os 15 minutos finais de R1 são magia pura, um prêmio a todos que se dedicam a cultuar a história criada “há muito tempo atrás” por George Lucas, a qual parece mesmo estar agora em boas mãos. Não achei um filme perfeito, nota 10, “o segundo melhor da saga, só atrás de O Império Contra-Ataca” como tenho lido. Mas é sem dúvida um baita filme – divertido, tenso, com o DNA de Star Wars, mas com um algo a mais que ainda não tínhamos visto, nem sabíamos que era permitido ter. E o que mais me incomodou da pré-estreia até agora é o termo “Fan Service”, a mais nova invencionice dos críticos pra designar os elementos incluídos na história “só para agradar/homenagear os fãs” (easter eggs, personagens de outros episódios, etc). Assim, ó – encarnando aqui toda a brutal sinceridade do genial K-2SO (o “Sheldon Cooper dos robôs“): VÃO SE CATAR! Este é o oitavo filme da saga Star Wars para o cinema, sem contar todo o resto – É ÓBVIO que não é um filme pra quem nunca viu nada, pra quem não conhece o Darth Vader, pra quem acabou de chegar de outro planeta e não sabe o que é Star Wars (será que em algum planeta do universo alguém ainda não conhece Star Wars?). Que papinho de gente mal-amada, de quem tem inveja da diversão dos outros e fica desdenhando pra diminuir a alegria alheia. Pega tua empáfia e vai de mão dada com ela ver filme independente europeu e nos deixa em paz, seu xarope!

Traduzindo: não acho possível gostar de R1 sem conhecer a história (muito menos entender direito o que está rolando). Apesar dos vários novos personagens e planetas nunca antes citados, a armadilha emocional está nos detalhes, na bagagem que já temos para saber a real importância da missão daquela valorosa “mini-legião estrangeira” atrás do HD mais valioso das galáxias. Baita sacada o “furo de roteiro” que sempre foi aquele bueiro destapado na Estrela da Morte ser proposital – ideia de quem parece ter estudado a fundo Star Wars, a ponto de perceber também a importância do Tarkin para viabilizar esta trama, e assim não medir esforços para construir o mais perfeito CG que eu já vi! Meu cérebro levou algumas cenas pra entender que era computação gráfica, e não um ator maquiado para se parecer com o finado Peter Cushing (tanto que só consegui ler as legendas ou prestar atenção nas falas dele na segunda vez que vi o filme). Parabéns aos responsáveis!

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Darth Vader… o que dizer? Questionei sua aparição em R1, achava que era só um chamariz, sentia que não seria relevante para a história… bah, errei feio, errei rude: MATOU A PAU!!!! Não estava esperando a cena final, achei que seria só aquela ponta (bacana) no meio do filme, em seu castelo/spa em Mustafar (bem que podia ter “menas” névoa naquele tubo pra vermos melhor ele queimado lá dentro, heinhô?). Mas não: tivemos FINALMENTE o temido Darth Vader ARREGAÇANDO, sujando as mãos como se não houvesse amanhã, sabrando ao meio quem tava na frente com uma crueldade que George Lucas sempre escondeu da gente, certamente com medo do que diria a “patrulha do politicamente correto”… pois a vocês foi dado o recado: #CHUPEM! \m/

Em meio a batalhas dignas do início do Resgate do Soldado Ryan, com tiro comendo pra tudo quanto é lado, uma obra-prima me fez engasgar: trechos de pilotos rebeldes (o Red Leader e o Gold Leader) não usados no Episódio IV em 1977, remasterizados e inseridos com precisão cirúrgica nas cenas do ataque à base imperial em Scarif… quando vi a primeira vez pensei: “HEI – EU CONHEÇO ESSES DOIS!”, mas assim como o Tarkin 3D, não consegui decifrar de imediato a genialidade de quem bolou essa homenagem fantástica aos fãs, que se junta ao leite azul na casa da Jyn e ao esbarrão dela na dupla de arruaceiros da Cantina pelas ruas de Jeddah como verdadeiros “Disney Magical Moments“, algo que está na cartilha de quem trabalha lá, e que foi executado com maestria pelos roteiristas de R1.

A narrativa ao estilo zapping, cortando as cenas para os nomes dos lugares escritos na tela (em vez das clássicas transições “persiana horizontal do powerpoint”) deram personalidade ao filme, que teve a macheza de não abrir com o roll amarelo, nem com o nome Star Wars gigante na tela. Não temos nem os temas musicais originais por completo, só pequenos trechos que já emendam em ambientações sonoras perfeitas pra porradaria comer solta. Ponto para a coragem de não se importar com as reclamações dos xiitas, ponto para quem soube fazer igual mas diferente, ponto para quem nos mostrou através do microscópio uma história que já havia sido contada, revelando novas camadas de drama, emoção e diversão.  IMPOSSÍVEL não sair do cinema sem morrer de vontade de chegar logo em casa pra rever Uma Nova Esperança, agora sabendo o parto de cócoras sem anestesia que foi entregar aquele pen drive pra Leia. Rogue One, um filme que nos mostrou o calibre de possibilidades e todo o potencial de destruição de críticas que possui essa “Estrela da Morte criativa” da Disney. Ansioso já por dezembro de 2017, para mais um capítulo da “Vingança dos Fãs de Star Wars” contra os chatos de plantão! (abaixo, eu passando por cima das lágrimas dos críticos após ter visto R1… eu já disse #CHUPEM hoje?)

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E agora, tendo ficado bem claro que adorei Rogue One como um todo, seguem em tópicos algumas coisas que não curti muito. É apenas a minha opinião, de fã sob forte emoção, de alguém que ama Star Wars desde 1977, que não invalidam em hipótese alguma a existência do filme – não se ofendam, não me ofendam (muito), não terminem amizade comigo por causa disso, ok? Afinal, ainda teremos muitas filas de pré-estreia juntos pela frente…

  • Achei que a Princesa Leia não precisava ter se virado para a câmera no final – já estava entendido que era ela e a emoção da cena estava garantida. Ao virar, o CG não pareceu tão perfeito como o do Tarkin (me lembrou até um boneco de cera), mas não foi nada que tirasse o brilho daquele momento sensacional.

 

  • Opinião pessoal: acho estranho a Força ser cultuada por não-Jedis. Não me parece certo a expressão “Que a Força esteja conosco/com você” ser banalizada e usada normalmente por todo mundo. Deveria ser algo incompreensível, inexplicável, que quando controlado dá poderes incríveis à pessoa, como vimos na trilogia clássica (esqueçam os Midi-Chlorians!). O que se entende é que o ceguinho Chirrut tem a Força em estado bruto como tinha o Anakin piá, e ao não ter recebido treinamento adequado, não desenvolveu as habilidades necessárias pra virar Jedi. Mas no fim a coisa virou zona: até a Jyn cita a Força em vão… sei lá, não gostei.

 

  • Sabemos que houve refilmagens depois que o filme estava pronto, mas a coisa deve ter sido mais feia do que imaginávamos. Há VÁRIAS cenas nos trailers que não estão no filme, inclusive algumas em que nitidamente a proposta era outra, como a Jyn e o Cassian correndo com os planos da Estrela da Morte pela praia, e não lá em cima da torre. Tiraram também as iradas cenas dos stormtroopers com água pela canela, do Tie Fighter surgindo na frente da Jyn na plataforma da antena e do Krennic passando com a capa por cima da água, entre outras… alguém deve ter enfartado nessa brincadeira!

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  • Felicity Jones está OK como Jyn Erso, mas pra mim longe daquela atriz que concorreu ao Oscar pelo baita papel em A Teoria de Tudo. Não conseguiu acrescentar um algo a mais no clichê da jovem heroína de ação – comparando, achei a Rey da Daisy Ridley melhor. Pena…

 

  • Death Troopers. Como seria esta tropa de elite do império? Olha o nome, olha a farda preta, olha a quantidade de action figures especiais… mas não passaram de guarda-costas do Krennic, como a guarda real do Imperador (aqueles todos de vermelho). Acabaram não dizendo a que vieram, erram tiro à queima-roupa igualzinho aos bons e velhos stormtroopers… decepcionante.

 

  • Preferia que a ponta do C-3PO e do R2-D2 tivesse acontecido não perdida lá em Yavin, mas já dentro da Tantive IV com a Leia na última cena do filme. Seria beeeeeem menos forçado (assim pareceu só pra dizer que os dois estão presentes em todos os episódios da saga).

 

  • E encerrando: alguém sabe onde tá o abaixo-assinado pra essa cena ANTOLÓGICA abaixo entrar na versão estendida de Rogue One? 😉

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A noite

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Engraçado como sempre me senti bem de noite. Desde pequeno, desenhando até tarde… como se ela me inspirasse! Por causa desta cumplicidade nem tinha ideia ainda de como a noite influenciava as mentes mais jovens. Demorei a sair, não concebia pedir o dinheiro suado de minha mãe para sair… para sequer beber. Até poder garantir minhas necessidades e meus vícios se passou algum tempo. Comecei a ser um amante da noite meio tarde em minha vida, já com 22 anos passados. Já era velho demais para cair no seu canto de sereia, mas inquieto o bastante para aceitar seus desafios. Topei alguns… abri mão de outros… me mantenho vivo neste meio termo.

De lá pra cá já se vão alguns anos! Mais encontrei do que perdi amigos na noite. Alguns bons o suficiente para terem seu lugar ao sol… já outros insistentemente me encontrando nos desmandos da madrugada. A noite me ensinou a beber, a chegar em mulher, a falar mal da luz e a conhecer seus cúmplices. Alguns só querem se esconder do dia, já outros querem se esconder da vida. Incrível como as pessoas se desnudam depois do pôr-do-sol. Mas ao contrário da crendice popular não são gatos pardos! São almas com todas as cores possíveis: o bege da apatia… o cinza da culpa… o vermelho da dor e até mesmo o dourado do amor e o azul da esperança!

Alguns dormem cedo demais ou vêem TV demais e envelhecem sob a luz sem sequer perceberem o imenso universo que se esconde em uma simples sombra de noite de lua cheia.

Amante, madrasta, ingrata, vadia… cada um rotula a noite como lhe convêm… mas ninguém diz que esta morta. Dizem que é na luz que crescemos, mas no nosso âmago temos a certeza que é a cada noite que renascemos.

Os novos velhos valores de Star Trek

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A ansiedade para ver a sequência de um filme que se gostou é normal. Agora, para mim, quando se fala de Star Trek a ansiedade vai a lugares onde nenhum homem jamais esteve.

Brincadeiras a parte depois do sucesso do reboot da franquia no cinema em 2009 a expectativa em torno de Star Trek – Além da Escuridão era palpável. Todos queriam ver a evolução da amizade reescrita entre Kirk e Spock e suas consequências, pois até a chegada de J.J. Abrams os personagens já estavam estabelecidos e tinham uma amizade solidificada. Nunca se explorou a fundo um ”jovem” Kirk e um “jovem” Spock e as escolhas passionais que a juventude ocasiona.

E é por ai que o filme começa. Um cabo rompido gera uma situação de vida ou morte que leva há uma reação inadmissível para um capitão da Frota Estelar e lá se vai a 1ª Diretriz.

 1ª Diretriz – É proíbido a todas as naves e membros da Frota Estelar interferir com o desenvolvimento normal de uma cultura ou sociedade. Essa diretriz é mais importantes do que a proteção das naves ou membros da Frota Estelar. Perdas são toleradas se forem necessárias para a observação dessa diretriz.

Aqui vale uma ressalva sobre como o diretor retratou a aparição da Enterprise para uma cultura primitiva. Ao invés de usar um plano geral que mostrasse toda a nave saindo do oceano, J.J. Abrams enquadrou a cena quase do ponto de vista dos habitantes do planeta, que obviamente a veem como uma divindade. Um detalhe apenas, mas que mostra como o diretor lida com um cânone da franquia e exemplifica na prática como a quebra da 1ª Diretriz pode criar a imagem de “Deuses” e contaminar culturas primitivas sem apelar para discursos reflexivos.

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E, neste segundo filme J.J. Abrams acerta em outra coisa, álias duas: o vilão e o ator que o interpreta. A atuação de Benedict Cumberbatch confere uma passionalidade raivosa impressionante à nova versão de Kahn. Os atos do vilão são viscerais e condizem exatamente com o que se espera de um ser criado para a guerra e que descarta sem compaixão todos que se opõe aos seus objetivos. Esta reinterpretação do maior vilão da franquia até pode dar argumentos para alguns críticos, mas o raciocínio segue a base do primeiro filme, onde uma aventura no espaço-tempo rearranjou tudo o que se sabia sobre a Enterprise e sua tripulação. Esta é uma abordagem  muita usada nos quadrinhos na reconstrução de personagens, mas que vai permitir aos roteiristas separar o joio do trigo da cronologia clássica e reinventar a franquia para uma nova geração.

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É este respeito e conhecimento com elementos da franquia que consegue agradar muitos dos fãs antigos – óbvio que os treekkies xiitas sempre acham algo que não condiz com a série original. Já os novos fãs são fisgados pela ação e a nova dinâmica na relação de amizade entre Kirk e Spock, visto que nos roteiros com influência de Gene Rodenberry imperava a união incondicional da tripulação perante os desafios externos e as decisões tomadas sempre prezavam pela alta dose de racionalidade, o que muitas vezes gerava uma visão mais contemplativa e monótona nos roteiros dos filmes, pois até mesmo a revolta e a indignação acabavam por serem planejadas e metodicamente colocadas em prática, como em Star Trek Insurreição por exemplo.

Para J.J. Abrams os personagens não possuem esta visão e a certeza de sempre tomar a atitude certa para cada momento e isso fica explicito em uma fala do capitão Kirk: “- Eu não sei o que fazer ou como fazer… eu só sei o que eu posso fazer!”

Para mim é particularmente emocionante ver uma Entreprise e sua tripulação em seus primeiros anos juntos, onde todos aprendem na prática os valores de camaradagem que Gene Rodenberry sempre pregou na série clássica.

Agora, que venham os Klingons de J.J. Abrams!

Cheiro de golpe

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Ato 1:
Como todos os anos a passagem de ônibus em Porto Alegre aumenta indo a R$ 3,05.

Ato 2
A população – notadamente os estudantes – organiza passeatas e atos de protesto contra o aumento.

Ato 3
Os vereadores  Pedro Ruas e Fernanda Melchiona do PSOL entram com uma ação cautelar e obtém liminar judicial caçando o aumento.

Ato 4
Em mais uma tentativa para a redução da inflação o Governo Federal isenta as empresas de transporte urbano do PIS e CONFINS incidentes sobre o cálculo da passagem.

Depois disso tudo vem chegando em Porto Alegre o ato final desta peça, quando o Ministério Público – a julgar pelas manifestações feitas na imprensa – deve pedir a cassação da liminar e reiniciar o processo do cálculo da passagem. Na prática isso quer dizer que voltaremos às discussões de Maio de 2013 quando transitava na prefeitura de Porto Alegre o aumento pleiteado pela empresas de transporte coletivo, mas com um novo ingrediente na fórmula:
a isenção dos impostos.

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Quer dizer que não basta a passagem de ônibus em Porto Alegre ter um aumento acumulado de 670% entre 1994 e 2012 contra aumento do INPC de 272% registrado no mesmo período. Não basta o serviço se deteriorar ano a ano. Não basta as empresas usarem um método de cálculo fraudento levando em conta parte da frota que nem entra em serviço para justificar os seguidos aumentos. Não basta as empresas operarem em um imoral Sistema de Permissão de Serviço sem nunca terem sofrido uma licitação pública. Não… nada disso basta!

E conforme for o ato final poderemos estar vendo um novo golpe contra o bolso da população se a passagem voltar a aumentar, mesmo com a isenção dos impostos.

O consumo nosso de cada dia!

Muito se vê e lê sobre a época em que vivemos e sobre como as empresas, agências de propaganda e até mesmo os próprios governos nos empurram de tudo um pouco, nos prometendo uma vida melhor e mais completa. Os analistas econômicos, sociólogos e PhDs de plantão falam muito sobre a sociedade consumista e como ela sobrecarrega o processo produtivo e sobre como este processo se torna cada vez mais voraz, sobrecarregando o ser humano e criando a frustação, que por sua vez é aplacada pelo consumo. Uma verdadeira roda viva que, na verdade, se iniciou há pouco tempo.

Antes disso a grande ambição humana era a corrida para se criar algo único e original, algo que distinguisse o indivíduo dos demais. Quem viu o filme “Uma Mente Brilhante” e a obcessão de John Nash por sua “ideia original” e de como ela o levou a beira da loucura tem uma noção do que estou falando.

Hoje em dia somos tantos, em tantos lugares e comandados por tão poucos que esta cada vez mais difícil o ser humano normal se destacar entre seus pares. A maioria das pessoas é apenas parte do processo produtivo. O mérito e o reconhecimento pelas grandes ideias não pertencem mais às pessoas, mas sim aos conglomerados para o qual produzem.

Assim a índole humana, que por milênios domou os elementos e criou sua própria jornada, se vê prostrada diante de um mundo que caminha sem ela. Tudo acabou se tornando mediano: a educação, o emprego, o casamento, a própria vida… até que a questão surge: como lidar com esse sentimento de diferenciação que sempre nos acompanhou???

E aí veio a grande sacada. Para que se esforçar em “ser”, se você pode “ter”???

Para o trabalhador médio os grandes feitos, as grandes ideias e o pensar diferente foram substituídos pelo carro do ano, o novo gadget e a ostentação de suas roupas. A realização pessoal virou questão do que se pode comprar que os outros não possam. Ser o primeiro a ir naquela balada famosa com uma camisa que ninguém mais tem é o Nirvana para alguns. Enquanto as pessoas estão neste ritmo não irão se importar em apenas fazer parte do processo produtivo. Não irão questionar, se impor ou mesmo se incomodar com isso.

Não  é ser contra o consumo, mas o fato é que elevamos esta necessidade na enésima potência para suprir nossa carência de reconhecimento. Acabamos buscando fora o que deveria vir de dentro de nós e, para a maioria das pessoas o grande dilema “ser ou não ser” se transforma no “ter ou não ter”. Com isso, aquele inconformismo, rebeldia e loucura que marcou Hamlet e um pouco do subconsciente de cada um de nós vai ficando com a voz cada vez mais débil… mais baixa, quase um lamento… até que um dia vai sumir entre tudo o que compramos.