Quando a modernidade era pobre

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Não pretendo falar sobre o avanço do Flat Design (tendência que nasceu nas interfaces digitais para usuários) e nem sobre como ele vem migrando para outros meios do design. Gostaria de falar sobre as percepções que o Flat Design desperta, e nisso é interessante ver como a opinião das pessoas muda.

Se apresentada a um cliente há pouco tempo atrás, uma peça elaborada com os moldes mini- malistas do Flat Design seria sumariamente reprovada e severamente criticada por ter um design “pobre” – quando digo cliente, não falo de multinacionais ou empresas com departamentos de marketing trabalhando em parceria com suas agências em cima do que o consumidor “precisa” e não o que ele “quer”. Quando digo cliente falo do cliente médio, sem estrutura ou planejamento, que simplesmente responde a demanda e que é incapaz de aceitar uma nova ideia ou perceber que a agência de publicidade é uma parceira e, principalmente, se recusa a perceber que o consumidor pensa.

Bom, para este cliente (que deve representar perto de 90% dos anunciantes) não importava a correta defesa, a pertinência ou o conceito embutido na proposta. O visual era tido como “pobre” e ponto. De volta à criação e desta vez com uma foto, hein!!!

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Era, e infelizmente ainda é, a época de um jargão – agora, ao meu ver – famigerado: “1 imagem vale por 1000 palavras”. É incrível como este raciocínio vai do 8 ao 80. Ajudou a criar peças belíssimas, mas seu uso sem critério sentenciou quase a morte o anúncio All Type, afinal – e aí cabe outro jargão deplorável – “ninguém vai ler isso”.

Por algum tempo estes dois mantras ditaram regras que sentenciavam propostas mais ousadas à gaveta de seus criadores. Uma imagem bonita (preferência para foto do produto ou pessoas sorrindo), uma frase curta (que na maioria das vezes deveria “vender” 3 ou 4 benefícios, mas ainda assim curta) e o logotipo o maior possível eram a receita da propaganda “certa”.

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New Apple iOS 7 features are displayed on screen during Apple Worldwide Developers Conference (WWDC) 2013 in San Francisco

Já hoje em dia a coisa é um pouco diferente. Grandes empresas já usam e consolidam o uso do Flat Design. Agora, aquele cliente médio já se acha com expertise para exigir algo moderno, inovador e diferenciado… algo tipo “menos é mais”… algo como o “tal do Flat Design”.

R.I.P. MTV – PQP! (ou “Desliguei a TV e Fui Ler Um Livro!”)

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Não comentei antes sobre o fim da MTV Brasil porque quis primeiro testemunhar a ressurreição da emissora dia 1º/10 em novo endereço e com nova proposta. Exatos 18 segundos depois da tal reestreia, ao ver o Fiuk (saúde!) anunciando uma entrevista com Anitta Poderosa, desliguei a TV e fui silenciosa e solitariamente velar minhas saudosas lembranças do canal que tanto contribuiu para minha formação cultural…

Quando a MTV surgiu nos EUA, eu tinha 8 anos (mesma idade hoje da minha filha mais velha), e como gostava muito de TV e cinema, notava que referências à emissora pipocavam em toda parte – do logotipo subliminar num cantinho da cena à citação explícita em Money for Nothing do Dire Straits (“I want my MTV”). Enfim, me criei sonhando com o dia em que poderia assistir ao tal “canal que só passa música”, até que, em 1990, ele chegou. Em UHF, com nome e sobrenome: MTV Brasil (diziam na época “Emetevê”… cruzes!). A linguagem e o visual eram os mesmos da matriz gringa, mas ainda com pouco conteúdo local, o que os obrigava a preencher a grade com muitos clipes repetidos e extravagâncias como as primeiras temporadas do Saturday Night Live (episódios com John Belushi, Eddie Murphy, Steve Martin e outros em início de carreira… es-pe-ta-cu-lar!!!!).

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Curiosidade 1: como as TVs mais antigas não pegavam UHF, só conseguia captar o fraco sinal chuviscado pelo videocassete, turbinado por uma antena de arame de cabide forrada com Bombril. Curiosidade 2: os clipes que mais bombavam nas primeiras semanas eram Patience, do Guns and Roses, e Everything I Do (I Do It For You), do Brian Adams. Curiosidade 3: fui no show de lançamento da MTV Brasil no Parque Marinha em Porto Alegre, com shows de Nenhum de Nós (o representante gaúcho com clipe na programação) e Capital Inicial – este, em apresentação melancólica vaiada do início ao fim… bons tempos!

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Tudo era novidade interessante, do formato com VJs (os “irmãos mais velhos platônicos” da gurizada) anunciando os blocos de clipes com drops de informações sobre as bandas, às vinhetas bizarramente coloridas e sem o menor sentido. E durante o dia inteiro, um “copy+paste on fire” de clipes de bandas e artistas dos quais eu nunca tinha ouvido falar: Big Audio Dynamite (“Rush”), Marky Mark and the Funky Bunch (“Good Vibrations”), Snow (“Informer”), Dee Lite (“Groove Is In The Heart”), Jesus Jones (“Right Here, Right Now”), E.M.F. (“Unbelievable”), Queensrÿche (“Silent Lucidity”), Paula Abdul (“Straigh Up”), Kriss Kross (“Jump”)… bah, passaria o dia inteiro aqui e não lembraria de tudo! Claro, nada era obrigatoriamente bom (muito lixo e 95% “one hit wonders“, diga-se de passagem), mas tudo era definitivamente diferente e intrigante. E o combo se completava com as animações insanamente geniais (a.k.a. “desenho animado com palavrão” – O.o): Beavis & Butt-Head, South Park, Garoto Enxaqueca, Aeon Flux… puxa, enquanto escrevo e seco as lágrimas, vou relembrando e percebendo que é mesmo impossível colocar aqui tantas coisas bacanas, até porque já deu pra pegar o espírito da coisa e sacar como essa MTV Brasil que fechou as portas – cheia de apresentadores irrelevantes e programas patéticos – já não era mais nem a sombra daquela que foi nossa vitrine para o mundo na era pré-internet.

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Não vou reinventar a roda aqui dizendo que não faz mais sentido hoje em dia ficar esperando um determinado clipe passar na TV, tendo o Youtube à disposição pra ver o que eu quiser, onde e quando eu bem entender. Mas confesso que não percebi isso logo de cara, e minha decepção foi aumentando em PG ao longo dos anos com o volume crescente de blablablá de subcelebridades instantâneas no ar, com programas de auditório, reality shows nacionais, torneio de futebol entre bandas e tudo mais que não fosse a porra da música no tal “canal que só passa(va) música”. A cada dia, foi ficando mais difícil continuar assistindo à MTV, e só hoje percebo claramente que o único errado nisso tudo, de fato, era eu. Ou melhor, a minha geração…

EMKT_MTV_v3Não, obrigado (eu, hein…)

Emulando emocionantemente minha história, a Carolina – minha filha de 8 anos – viu nascer essa “nova MTV Brasil“… enquanto passava de fase no joguinho das Monster High no iPad (!!!). Touché! Zéfiní! Sem mais, meritíssimo! Quando eu tinha a idade dela, a TV e seus 5 canais abertos eram soberanos, cagavam regra, construíam a sociedade com a naturalidade de quem não tem concorrência à altura (jogar bola e andar de bicicleta com chuva era complicado, e à noite, proibitivo). Sou fruto desse momento, e querer 100% de música no “canal que só passa(va) música” é, pra esse ancião de 40 anos que vos escreve, cartesiano e lógico – tudo que os jovens mais abominam. E como daqui pra frente, este texto dependeria de antropologia, psicologia, linguística, marketing, sociologia e outras “ias”, paro por aqui. Quero que “MTV” pra mim seja sempre sinônimo de diversão, não de tese de mestrado. À nova MTV Brasil, boa sorte na conquista da atenção da minha filha, que graças a Deus ainda não faz ideia de quem seja Fiuk, nem Anitta Poderosa, mas já sabe, por exemplo, que foi numa premiação da MTV que o Bon Jovi criou o formato unplugged/acústico, entre mil outras histórias a serem narradas aos meus netos no futuro (bom, talvez eu tenha que criar um Vlog para eles verem no iPad…)

PS) Para refletirmos: no vídeo abaixo, os últimos 13 minutos da velha e já saudosa MTV Brasil – absurdamente mais significativos e memoráveis que os últimos 13 anos da emissora que, um belo dia, teve culhão pra mandar a gente desligar a TV e ir ler um livro… #clapclapclap

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Os novos velhos valores de Star Trek

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A ansiedade para ver a sequência de um filme que se gostou é normal. Agora, para mim, quando se fala de Star Trek a ansiedade vai a lugares onde nenhum homem jamais esteve.

Brincadeiras a parte depois do sucesso do reboot da franquia no cinema em 2009 a expectativa em torno de Star Trek – Além da Escuridão era palpável. Todos queriam ver a evolução da amizade reescrita entre Kirk e Spock e suas consequências, pois até a chegada de J.J. Abrams os personagens já estavam estabelecidos e tinham uma amizade solidificada. Nunca se explorou a fundo um ”jovem” Kirk e um “jovem” Spock e as escolhas passionais que a juventude ocasiona.

E é por ai que o filme começa. Um cabo rompido gera uma situação de vida ou morte que leva há uma reação inadmissível para um capitão da Frota Estelar e lá se vai a 1ª Diretriz.

 1ª Diretriz – É proíbido a todas as naves e membros da Frota Estelar interferir com o desenvolvimento normal de uma cultura ou sociedade. Essa diretriz é mais importantes do que a proteção das naves ou membros da Frota Estelar. Perdas são toleradas se forem necessárias para a observação dessa diretriz.

Aqui vale uma ressalva sobre como o diretor retratou a aparição da Enterprise para uma cultura primitiva. Ao invés de usar um plano geral que mostrasse toda a nave saindo do oceano, J.J. Abrams enquadrou a cena quase do ponto de vista dos habitantes do planeta, que obviamente a veem como uma divindade. Um detalhe apenas, mas que mostra como o diretor lida com um cânone da franquia e exemplifica na prática como a quebra da 1ª Diretriz pode criar a imagem de “Deuses” e contaminar culturas primitivas sem apelar para discursos reflexivos.

HH

E, neste segundo filme J.J. Abrams acerta em outra coisa, álias duas: o vilão e o ator que o interpreta. A atuação de Benedict Cumberbatch confere uma passionalidade raivosa impressionante à nova versão de Kahn. Os atos do vilão são viscerais e condizem exatamente com o que se espera de um ser criado para a guerra e que descarta sem compaixão todos que se opõe aos seus objetivos. Esta reinterpretação do maior vilão da franquia até pode dar argumentos para alguns críticos, mas o raciocínio segue a base do primeiro filme, onde uma aventura no espaço-tempo rearranjou tudo o que se sabia sobre a Enterprise e sua tripulação. Esta é uma abordagem  muita usada nos quadrinhos na reconstrução de personagens, mas que vai permitir aos roteiristas separar o joio do trigo da cronologia clássica e reinventar a franquia para uma nova geração.

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É este respeito e conhecimento com elementos da franquia que consegue agradar muitos dos fãs antigos – óbvio que os treekkies xiitas sempre acham algo que não condiz com a série original. Já os novos fãs são fisgados pela ação e a nova dinâmica na relação de amizade entre Kirk e Spock, visto que nos roteiros com influência de Gene Rodenberry imperava a união incondicional da tripulação perante os desafios externos e as decisões tomadas sempre prezavam pela alta dose de racionalidade, o que muitas vezes gerava uma visão mais contemplativa e monótona nos roteiros dos filmes, pois até mesmo a revolta e a indignação acabavam por serem planejadas e metodicamente colocadas em prática, como em Star Trek Insurreição por exemplo.

Para J.J. Abrams os personagens não possuem esta visão e a certeza de sempre tomar a atitude certa para cada momento e isso fica explicito em uma fala do capitão Kirk: “- Eu não sei o que fazer ou como fazer… eu só sei o que eu posso fazer!”

Para mim é particularmente emocionante ver uma Entreprise e sua tripulação em seus primeiros anos juntos, onde todos aprendem na prática os valores de camaradagem que Gene Rodenberry sempre pregou na série clássica.

Agora, que venham os Klingons de J.J. Abrams!

Cheiro de golpe

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Ato 1:
Como todos os anos a passagem de ônibus em Porto Alegre aumenta indo a R$ 3,05.

Ato 2
A população – notadamente os estudantes – organiza passeatas e atos de protesto contra o aumento.

Ato 3
Os vereadores  Pedro Ruas e Fernanda Melchiona do PSOL entram com uma ação cautelar e obtém liminar judicial caçando o aumento.

Ato 4
Em mais uma tentativa para a redução da inflação o Governo Federal isenta as empresas de transporte urbano do PIS e CONFINS incidentes sobre o cálculo da passagem.

Depois disso tudo vem chegando em Porto Alegre o ato final desta peça, quando o Ministério Público – a julgar pelas manifestações feitas na imprensa – deve pedir a cassação da liminar e reiniciar o processo do cálculo da passagem. Na prática isso quer dizer que voltaremos às discussões de Maio de 2013 quando transitava na prefeitura de Porto Alegre o aumento pleiteado pela empresas de transporte coletivo, mas com um novo ingrediente na fórmula:
a isenção dos impostos.

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Quer dizer que não basta a passagem de ônibus em Porto Alegre ter um aumento acumulado de 670% entre 1994 e 2012 contra aumento do INPC de 272% registrado no mesmo período. Não basta o serviço se deteriorar ano a ano. Não basta as empresas usarem um método de cálculo fraudento levando em conta parte da frota que nem entra em serviço para justificar os seguidos aumentos. Não basta as empresas operarem em um imoral Sistema de Permissão de Serviço sem nunca terem sofrido uma licitação pública. Não… nada disso basta!

E conforme for o ato final poderemos estar vendo um novo golpe contra o bolso da população se a passagem voltar a aumentar, mesmo com a isenção dos impostos.

E o malandro deu a letra

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“Esta palhaçada vai piorar quando faltar um ano e meio para o mundial. O pior está por vir, porque o governo irá viabilizar as obras emergenciais, que não precisam de licitações. Por isso, estamos fadados a assistir ao maior roubo da história do Brasil!”
Romário

Pode ser que com estas palavras Romário tenha feito seu primeiro (talvez único) gol memorável como parlamentar. Isso foi publicado no seu Facebook em março de 2012, mas o tempo e as atitudes do Governo só vem confirmando sua declaração.

Justo ele, que mais do que ninguém soube se aproveitar das fraquezas da defesa adversária, e por isso mesmo pode constatar: o povo brasileiro tem uma defesa medíocre ante a voracidade dos atacantes corruptos de nosso Governo e da FIFA. Os números estão ai a nos provar a realidade destas palavras. Orçamentos pulam de 600 milhões para 1,2 bilhão em meros canetaços e muitos dizem que isso é normal em obras deste porte. É incrível a facilidade com que a fantasia da retórica sobrepuja a realidade da matemática. Algumas vozes até se levantam e tentam fazer a maioria ouvir a razão, mas acabam abafadas por manobras de uma imprensa conivente e embevecida por seu papel neste teatro, pra não dizer completamente vendida. Neste cenário se cria a oportunidade, e se há oportunidade há ladrões, e isso temos de sobra, seja em gabinetes parlamentares ou nas diretorias de empresas e entidades.

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No final o povo brasileiro vai acabar como alguns zagueiros vencidos por Romário. Tontos, caídos no gramado, vendo o goleiro ir pegar mais uma bola no fundo do gol e se perguntando como isso aconteceu.