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Não era para ser de GRAÇA???

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Ontem li a equação acima pela primeira vez numa faixa em um Posto da Shell, e como tantas outras promoções que vemos por ai acho ela descabida e até mesmo desonesta.

Pagar pelo brinde! Grande sacada do Diretor Financeiro com o apoio do Diretor de Marketing. Só pode ser isso.

E mesmo correndo o risco de ser tachado de velho ouso lembrar que na minha época bastaria abastecer o carro com os tais 25 litros de gasolina para se ter direito ao brinde, sem qualquer ônus a mais, simples assim. E se o tal brinde fosse parte de uma coleção, tanto melhor, a volta ao posto de gasolina estava garantida dali há poucos dias. Afinal quem não gostaria de ter sua coleção completa. É só não complicar que todos querem.

Eu guardava as tampinhas de refrigerante para trocar por copos da Pepsi-Cola (se chamava assim na época) ou por garrafinhas em miniatura da linha Coca-Cola, que se bem me lembro eram trocadas por 2 tampinhas cada garrafinha e 5 ou 6 tampinhas pelo mini-engradado.

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E falando a verdade, até já paguei por brinde sim. Na primeira edição dos io-ios da Coca-Cola no Brasil (lá nos idos dos anos 80) para se ter os translúcidos (os mais legais) tinha que se dar uma quantia em dinheiro, mas era uma valor quase simbólico. Os outros mais simples, com borda branca, se trocava sem precisar de dinheiro.

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Mas hoje as empresas esquecem a razão final do brinde que é ampliar a sensação de vantagem na compra de determinado produto. Mas como ter esta sensação sendo racional? É só fazer a conta: são 4 carros na coleção, ou seja 4x R$ 14,90 = R$ 59,60,  mais o custo do combustível em si (100 litros x R$ 2,78/litro em média = R$ 278,00) chegando ao valor de R$ 378,60.

Não tem como. Na ponta do lápis não há como achar que se sai ganhando pagando por um brinde.

E quem trabalha em algum ramo de comunicação ou de marketing sabe que o valor unitário do brinde se dilui na proporção da quantidade produzida. Assim R$ 14,90 por um Batmóvel beira o ridículo. A Shell deve ter pago algo em torno de R$ 2,00 ou R$ 4,00 cada. E olha que tô chutando alto. O resto é lucro.

Mas no frigir dos ovos só existem empresas que fazem estas promoções porque existem consumidores que se sujeitam a pagar, seja pela vã ilusão de exclusividade do brinde ou até mesmo algo tipo insanidade temporária. Vai saber!

A  prática de se cobrar um determinado valor em dinheiro pelo brinde não é nova e veio pra ficar. Muitas vezes elas existem apenas para dar significado ao lado mais promocional de um projeto de marketing. Só continuo achando que promoções assim são apenas mais uma forma imoral da empresa lucrar em cima do consumidor sem ele ter um benefício na mesma proporção em troca.

A importância do Plano B, C, D…

“- Saída pela esquerda!”

Quem viveu os anos 70 e 80 se lembra do Leão da Montanha falando isso quando a coisa fugia do controle. Era a senha para mudar o curso e sair ironicamente de cena.

No desenho a “saída pela esquerda” era uma fuga, mas será que em nossas vidas e principalmente em nossas carreiras ela não pode assumir a função de uma “deixa” para mudarmos o foco, seguir outros rumos, outros projetos? Ter uma “saída” mesmo que momentânea da pressão e, as vezes, exigências absurdas de nossa profissão?

Confesso que me dei conta disso há pouco tempo, mas estou aprendendo que preciso ter algumas “saídas pela esquerda”. Ter projetos paralelos, mesmo que me exijam mais algumas horas, tem se tornado essencial para que eu possa explorar uma outra ótica de criatividade que não seja a de terceiros, das secretárias de terceiros, das esposas de terceiros e por aí vai.

Seja estudando, escrevendo, fazendo freelas ou trabalhos autorais estes projetos te dão uma outra visão e arejam a mente que ás vezes acaba ficando condicionada demais a planejamentos e estratégias de marketing.

Além do ganho em respirar coisas novas, se amplia a chance de ter contato com novas pessoas alheias ao seu ramo mas, com os mesmos interesses relativos ao seu projeto.

Ai sim, as possibilidades de coisas boas acontecerem se multiplicam. E muito.

Temos que aproveitar a visão multidisciplinar que as empresas nos exigiram a ter e aplicar ela a nossa própria experiência, criando assim as nossas próprias “saídas pela esquerda”.

Quem sabe umas delas não acaba se tornando a porta de entrada para algo diferente?

Lápis 2B e papel

Eu desenhava muito quando era mais jovem. Por “muito” entenda-se quantidade. Passava os dias desenhando e minha primeira referência foram os gibis de super-heróis. Comecei copiando por cima, depois mudava a forma do uniforme e “criava” meus personagens. Fui evoluindo e passei a desenhar na folha em branco ao lado do gibi e mais tarde já dominava o traço e criava minhas próprias formas, e neste auto-aprendizado as vezes, para meu personagem ficar mais cool e imponente, apareciam músculos e proporções que não existiam de fato na anatomia humana. Me lembro que sempre tinha na minha mochila do colégio uma pasta com meus desenhos. Com o tempo aquela pasta se transformou em duas e pesava pra caramba nas costas e alguns desenhos foram rasgados mais de uma vez pelos valentões do colégio para me chatear (isso é considerado bullying ou violação de direitos autorais???)
Mas eu não me importava, não sei porque mas precisava ter meus desenhos por perto.

Cresci, passei a trabalhar em propaganda e por mais paradoxal que isso seja comecei a desenhar menos. Claro, o desenho ainda existe, pois não gosto de criar direto na tela do computador, sempre rabisco antes em folha de papel a ideia básica e a estrutura do layout. Mas não passam disso: rabiscos.

O traço mais refinado, o trabalho das proporções, a trama formando o sombreamento, a correção feita em inúmeras folhas de papel manteiga até se ter o desenho finalizado e devidamente protegido embaixo do nanquim ou do verniz em spray não é feito mais há algum tempo.

Um dos meus projetos é voltar a desenhar mais e agora pensando nisso que percebi depois de tanto tempo porque estava sempre com aquele peso nas costas.
Era para não esquecer de desenhar.

O “Princípio da Paradoxalidade de Deoclides” no comercial do Banco Itaú

[Texto publicado originalmente no site Perdi Essa Aula]

Rolou esses tempos uma divertida discussão entre meus amigos não-publicitários lá no Facebook, a partir da minha opinião sobre o vídeo abaixo – um comercial institucional de 2 minutos do Banco Itaú, mostrando a reação de crianças frente a objetos tecnologicamente obsoletos. Estou trazendo o bafafá aqui pro Feijão, pois acho que pode render um belo quebra-pau ideológico. Portanto, a quem interessar possa, soa o gongo:

Quando criança, morei num condomínio cujo odioso síndico se chamava Deoclides – um veio ranzinza (pleonasmo?), que tinha como missão de vida dedurar aos pais da gurizada cada travessura que aprontávamos. As mínimas coisas que fazíamos o incomodavam, mesmo que fossem típicas da curiosidade e inocência infantis. Certo dia, fui rotulado por ele como “um dos cabeças da gangue” (???), sendo o ápice dessa história o dia em que, na presença de toda a “turminha do barulho”, o Veio Deoclides puxou a cinta e ameaçou o outro cabeça da gangue com o antológico enunciado: “Se o teu pai não te deu educação, eu vou dar – isso aí é falta de laço!”. Felizmente, o anjo da guarda das crianças bateu ponto, injetou uma dose de bom senso à cena e impediu que o absurdo fosse consumado.

O tempo passou, e por mais paradoxal que possa parecer, me vejo hoje, aqui, perpetuando o legado do finado Veio Deoclides, profundamente incomodado com essa travessura da gangue de marqueteiros do Itaú que, segundo minha percepção, pisou e sapateou em cima dos sentimentos de uma geração inteira. De cinta em punho, venho dedurar a vocês o equívoco contido nessa mensagem publicitária tão fofucha e descolada para uns, porém deselegante, desrespeitosa e inadequada para outros. Ranzinza, eu? Vejamos então…

“O mundo está mudando cada vez mais rápido, e o Itaú acompanha essas mudanças”. Até aqui, tudo bem – são duas verdades aceitáveis. O problema, a meu ver, não está no conceito, mas na forma. Para mostrar que o Banco vem se modernizando constantemente (e exemplificando isso ao apresentar nesta campanha sua interface específica para Ipad), optou-se por debochar de antigos ícones da tecnologia – ridículos em comparação de tamanho e funcionalidade com os hardwares atuais – para ilustrar a importância de evoluir e acompanhar as necessidades das novas gerações. OK, compreendi a ideia. Mas confesso: me doeu ver o escárnio da piazada em cima do Atari, da vitrolinha, da Polaroid, do videocassete, do gravador… – saudosos produtos que vi nascer (e morrer). Sonhos de consumo da minha mais tenra infância, responsáveis por alguns dos momentos mais marcantes e emblemáticos da minha vida, da vida das crianças do meu antigo condomínio e, com certeza, de muito mais gente. Fiquei chocado, triste, revoltado em ver as lindas lembranças do meu passado sendo esculachadas oficialmente por pequenas e ingênuas marionetes a serviço da máquina de marketing do Itaú.

As crianças do vídeo são encantadoras? Sem dúvida. Imagino o tsunami de “uóóóóóóins” ali na hora do “pelo espetinho!“. Inocentes reações perfeitamente compreensíveis, de quem não faz a menor ideia da importância sócio-histórico-cultural de tudo aquilo que estão destruindo. Porém, para garantir o suposto humor do comercial, faltou sensibilidade aos criadores para evitar a gafe de rotular minha geração como ultrapassada. Numa época em que uma linha telefônica custava R$ 5.000,00, fui ter na minha casa um telefone igualzinho àquele amarelo do vídeo apenas após muito sacrifício e trabalho duro dos meus pais. Numa vitrolinha similar à que o guri está estragando ao raspar a agulha na mesa, conheci e me emocionei com alguns dos clássicos da Disney, narrados para crianças numa coleção de disquinhos coloridos. Uma câmera Polaroid igualzinha àquela ali registrou a emoção da vitória de um grande amigo meu num sorteio improvável de ser vencido, dando a ele, entre centenas de milhares de participantes, um Genius (brinquedo que parecia vir de outro planeta, e que sem dúvida também seria esculhambado nesse vídeo, se houvesse mais tempo). Num disquete de 5¼ como os que foram destruídos pelos representantes da Geração Y, carreguei o MS-DOS e o Wordstar que me possibilitaram escrever minha Monografia (o atual TCC) na faculdade, há 17 anos. E do Atari prefiro nem falar, já que pelo preço altíssimo, nunca tive um (apenas o genérico “Dactar II“, anos após a febre inicial dos videogames), sendo obrigado sempre a pedir arrego aos amigos abonados para jogar na casa deles – trauma de infância mal-resolvido, que assou meu cérebro e meu coração na hora que a guria o chamou de churrasqueira… “isso aí é falta de laço em quem criou esse comercial!“, berrou na hora o Deoclides dentro de mim!

“Mimimis” à parte, fica a dica sobre a dificuldade de agradar a gregos e troianos em campanhas publicitárias. Minha manifestação de repúdio neste caso foi mínima, mas e se sou alguém que resolve comprar de verdade a briga e gero outro case/viral como o da tal Academia Runner (provavelmente fake, mas válido enquanto fábula), que já virou até vídeo motivacional (abaixo), na mesma linha do Filtro Solar “do Bial”?

Não sou saudosista, como alguns que ainda preferem escrever textos em Olivettis barulhentas a usar o Word. Também acompanho “as rápidas mudanças do mundo” como o Itaú, com a diferença de respeitar esses produtos-mártires com gratidão por todo o serviço prestado em prol do progresso. Ao glorioso Banco Itaú, boa sorte na captação de novos clientes, afinal de contas é tudo uma questão de defender seus interesses. Como o meu, de preservar intactas as memórias de um período da minha vida em que fui muito feliz, e como fazia o pobre e sábio Deoclides, que – hoje percebo – apenas defendia seu justo direito de envelhecer com um pouco de dignidade e sossego…