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NÃO AO ORKUTCÍDIO!

Nunca esquecerei 2004 – o primeiro ano do resto da minha (nossa) vida social. Até ali, a interatividade na então revolucionária Internet ainda se resumia, via conexão discada, aos e-mails (ZAZ, Voyager, BOL, Tutopia… lembram?), aos chats em DOS (IRC, MIRC e demais onomatopeias de soluço) e aos posts e comentários em blogs com templates pasteurizados (Blogger, Webbloger). E então, como o golden ticket em uma despretensiosa Wonka Bar, surge um belo dia o convite para um tal “Orkut” (cuma???)… e o resto é história. A nossa história – minha, de quem está lendo este texto e, possivelmente, das próximas gerações de internautas (termo que fui buscar lá em 1996, pra deixar claro meu grau de antiguidade nesse admirável mundo novo da “cibernética”, como era chamada a informática pelos nossos antepassados). Confesso: eu era feliz… e sabia! Só o que eu não imaginava era a saudade que eu teria daqueles glory days… e é ela que me impede de puxar o gatilho cada vez que coloco a arma na boca pra cometer Orkutcídio.

Falando em pré-história, a cada logada no Orkut – tal qual a famosa cena do clássico “2001” – parecíamos inocentes neanderthais descobrindo as inúmeras possibilidades de interação social do portal: communities, scraps, testimonials (sim, tudo ainda em inglês), que nos levavam diariamente a desbravar caminhos inexplorados, expandindo espontaneamente a ferramenta de relacionamento do Google, exatamente como previsto e calculado por seu idealizador e padrinho de batismo. Tudo era novo, tudo era interessante, e o fatality psicológico era dado pela aura de exclusividade, de “clubinho fechado”, reunindo a princípio uma casta de beta-usuários (publicitários, nerds, hipsters em geral e todo tipo de gente descolada existente àquela altura no planeta). Podem me cornetear, mas era genial, e eu pagava pau violentamente para os responsáveis, fazendo propaganda gratuita da brincadeira (como na imagem abaixo, ao vivo no finado Estúdio 36, com o Túlio Milmann mostrando meu perfil na tela e eu, de microfone em punho, ensinando o Rio Grande do Sul inteiro a “orkutear”).

Grande parte da mística envolvia as chamadas Teorias da Conspiração: desde “vão começar a cobrar pra usar o Orkut”, “é tudo um plano pro Google dominar o mundo” e até a consistente lenda urbana de que, numa interligação das plataformas do Google, quem tinha Gmail começaria a receber propagandas com base nas comunidades das quais participava no Orkut (ex: quem estava na “Eu Amo Chocolate” receberia spams da Nestlé, Lacta, etc.). No fim, nada se concretizou nesse sentido, mas houve de fato utilizações mirabolantes e criativas, como a de um amigo meu que trabalhava em uma montadora de automóveis e criou a comunidade “Eu odeio a XXXXX” (fingindo ser um cliente insatisfeito com a marca), coletando por ali depoimentos sobre problemas diversos e providenciando suas correções – bem bolado, heinhôôô Batista?!

Em 5 saudosos anos de Orkut diário, me diverti, exercitei como nunca minha imaginação doentia (mantive por 3 meses um absurdo “Big Brother” sobre Star Wars… ah, a mocidade!), fiz valorosos amigos (até no Japão!), fiquei conhecido a ponto de dar entrevistas e palestras, ganhei presentes espetaculares (de coleções completas de action figures a autógrafo personalizado do Mauricio de Sousa!), anunciei a gravidez da minha esposa – acompanhada virtualmente por amigos e familiares distantes pela saudosa comunidade “Confraria da Sementinha” –, reencontrei colegas de escola e amigos de infância há muito esquecidos, entre centenas de outras boas lembranças que me ocorrem enquanto escrevo, me policiando pra não exagerar demais nas lembranças dos detalhes, dos causos hilários/surpreendentes/emocionantes. Tudo ao alcance do ponteiro do mouse – fácil, rápido, de graça. E então, conforme a máxima do Marketing que diz que “se o produto é grátis, o produto é você!”, um belo dia tudo começou a mudar.

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Surgiram os GIFs animados multicoloridos, os jogos patrocinados, os links maliciosos conduzindo seu micro sem escalas para vírus destruidores de HDs, competição de roubo de comunidades (substituindo o moderador por perfis fakes), empresas expandindo para o Orkut a avaliação de candidatos a emprego (vetando membros de comunidades como “Odeio meu chefe”, “Fumo maconha, e daí?”, “Bebo até cair” e outras profissional e socialmente tidas como “incorretas”)… foi a perda total da inocência, antecipando a “orkutização do Orkut” e abrindo caminho definitivo para o Twitter e o Facebook sugarem nossa vitalidade por esporte. Postar hoje virou obrigação fria e calculista, medindo palavras e projetando a repercussão de cada letra, com base na jurisprudência de quem se deu bem (ou mal) ao longo do caminho. Tudo se parece com algo já visto, porém recauchutado e com a maior cara de que é armadilha de algum marketeiro pra te vender areia no deserto.

Tá, já sei… é a direção inevitável, então não dá pra remar contra. Só que a cada ida ao embolorado Orkut pra apagar meu perfil, me pego duas horas depois do login fuçando nas comunidades que criei e que seguem respirando por aparelhos, teimosas e resistentes ao tempo e à concorrência pelos nossos minutos de ócio. Releio postagens de 8 anos atrás, folheio álbuns de fotos virtualmente empoeirados, e como se engatasse a quinta no DeLorean revivo a curtição de grandes e inesquecíveis momentos. E no silêncio sepulcral destas comunidades abandonadas à própria sorte, em meio a lágrimas de nostalgia e revolta, brado com toda força, de peito aberto, no topo da colina a quem possa me escutar: VOLTA, 2004!!! VOLTA, INOCÊNCIA!!! VOLTA, ORKUT ORIGINAL!!! VOLT ***BANG!!!!!*** (putz, na euforia o dedo escapou do gatilho e a bala passou de raspão na ponta da orelha… que cagaço, gente!)

O triste, difícil e incerto fim de uma paixão

[Texto publicado originalmente no site Perdi Essa Aula]

Ao término da minha recente mudança de apartamento, tive uma revelação surpreendente: os discos de vinil morreram. O chato foi ter constatado isso apenas após ter gasto os tubos num móvel feito sob medida para caber o toca-discos e minha coleção de vinis (147 unidades, devidamente catalogadas, emplastificadas e frequentemente desempoeiradas). Tudo bonitinho em seus novos lugares, hora de testar se a parafernália de cabos ficou funcionando: pelamordedeus, gente… era assim que se ouvia música na década de 80??? Bah, tá louco: o que menos se escuta é música, em meio à chiadeira ensurdecedora, aos “plécs” e “plócs” da agulha atropelando os ácaros adormecidos entre os sulcos. Aliás, tive inclusive de retomar o hábito de colocar uma moeda em cima do suporte pra fazer peso e passar por cima dos arranhões invisíveis na bolacha (diziam antigamente que era só passar casca de banana no disco – seria esse absurdo um tataravô dos hoax modernos, tipo apagar o arquivo com ícone de ursinho da pasta system32 do Windows?). Enfim, que experiência deprimente… justo eu, que defendi o vinil com todas as minhas forças na chegada do CD ao grande público em 90 e poucos. Eu – que adorava as capas enormes, a função de alternar do lado A para o lado B a cada meia-hora, que transformava os encartes em pôsteres colados na parede do quarto – tive finalmente que dar o braço a torcer: não há, hoje em dia, o menor motivo pra ouvir música em discos de vinil – nem mesmo o histórico Sgt. Pepper´s, que comprei num sebo pra ouvir “no clima” as loucuras revolucionárias dos Debítous. O preço do romantismo é alto: sofrimento, perda de tempo, frustração amplificada…

Mas o paradoxo vem agora: do jeito que as coisas vão, em ondas de revival e moda retrô pra tudo que é lado, como posso aposentar o toca-discos, se a qualquer momento o vinil pode inexplicavelmente voltar a ser febre ou mesmo declarado como a solução derradeira antipirataria, revertendo a marcha e ressurgindo das profundezas do esquecimento para novos dias de glória? Há pesquisas que comprovam que as vendas de vinis estão aumentando progressivamente lá fora, sem falar que não tem nada mais hype para uma banda do que lançar seu mais novo trabalho em formato litrão (“pen drive? Aff… so 2000´s, baby!“). Louco isso, né? Especialistas em Marketing e em Comportamento do Consumidor saem no tapa em momentos como esse, em que teorias acabam nocauteadas pela prática. Seria como, apesar do reinado absoluto e definitivo do Teflon nas cozinhas modernas, o Bombril voltasse aos 95% de domínio do mercado nacional de limpeza de panelas. Pois eu não duvido de nada, ainda mais depois que deram um jeito de resgatar com tudo os anos 80 – o que, pra mim, era o desafio supremo em termos de moda/tendência, tal o ridículo e exagero que foi tudo naquela época, mas que parece ter servido como uma luva para a afirmação da atual “geração colorida” (ATENÇÃO – o Ministério da Saúde adverte: o excesso de cores nas imagens abaixo pode causar convulsões).


Falando sério: há tempos a evolução deixou de ser algo cartesiano, lógico e, por que não dizer, sensato. Da fita VHS para o DVD, em termos de qualidade, durabilidade e facilidade de armazenamento, até fez algum sentido. Mas o que foi a treta homérica envolvendo o Blu-Ray, numa guerrinha de fabricantes e formatos tão agressiva que não só intimidou e encucou os consumidores como atrasou a logística de distribuição e aceitação do produto, praticamente natimorto com a chegada do 3D e outras tecnologias (efemeramente) mais interessantes. Tá tudo de cabeça pra baixo, minha gente! Que sentido faz, por exemplo, ficar segunda-feira à noite uma hora na frente da TV aturando o CQC, se o “Top Five” (única coisa que presta no programa – #prontofalei) pode ser visto direto  no YouTube no horário que você quiser? Radiohead lançando CD através de download remunerado conforme o gosto do freguês… nossa, pegaram o modelo das Cinco Forças de Porter, tacaram no liquidificador e sabe-se lá hoje em dia de onde podem surgir novos entrantes, de que época vêm os produtos substitutos, qual o real poder de barganha do consumidor… marqueteiros de plantão: TREMEI!

O negócio é ficar atento, acompanhando tudo de perto sem conceitos demasiadamente consolidados, pra não ser cruelmente atropelado pela evolução, como foram os pobres ácaros do meu saudoso primeiro vinil, Hollywood Hits Vol.1!

GERMINOU!

A hora chegou! Foram 12 anos olhando para um feijãozinho muito especial, adormecido em cima de um algodão cuidadosamente umidificado dia a dia, preparando o terreno para o grande momento. Pois, enfim, aconteceu: a ideia de criar um site em parceria com meu amigo-irmão Mauricio Andreoli saiu do papel (e das profundezas de nossas mentes doentias!) – timidamente, é verdade, mas de forma planejada e estruturada para germinar firme e forte, como merece.

Feijão Ao Dente” foi o nome escolhido, garantindo o nonsense indispensável para – como manda a cartilha publicitária – chamar a atenção e despertar a curiosidade para nossos textos, devaneios e demais maluquices que serão postadas aqui. Mas confesso que, mesmo que ninguém se interesse pelo que temos a dizer, sua manutenção será um misto de prazer, diversão, válvula de escape, terapia e realização, por tudo que ele representa pra mim. Das tardes sombrias e sem esperança na eterna “mesinha 2” (R.I.P.) ao atual tsunami de atucanações, compromissos e dúvidas existenciais da meia-idade, nunca deixamos de acreditar no potencial deste projeto – seja como bengala psicológica ou como nossa “Megasena da Virada” (acumulada há 12 anos… vige!!!).

A demora até o instante em que escrevo este texto era como uma desgraçada de uma casquinha de feijão no meu dente, incomodando e me avacalhando a cada sorriso incauto. Felizmente o Mauricio, como bom amigo, me avisou a tempo de tirá-la, numa metáfora que ajuda um pouco a explicar nossa escolha por este provocativo nome: o Mundo anda rindo com um feijãozão no dente, e alguém tem de salvar o dia alertando-o sobre isso, prevenindo-o do ridículo e evitando o constrangimento alheio.

Essa é a receita, na medida para quem está chegando com fome de produzir conteúdo relevante. Esse é o nosso tempero: meio salgado, al dente, às vezes até indigesto, mas pretensiosamente saboroso e com o famoso “gostinho-de-quero-mais”. E se alguém ficar com uma desgraçada de uma casquinha de feijão no dente, não se preocupe que – como cabe aos mais íntimos amigos – nós faremos questão de avisar! 😉