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R.I.P. MTV – PQP! (ou “Desliguei a TV e Fui Ler Um Livro!”)

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Não comentei antes sobre o fim da MTV Brasil porque quis primeiro testemunhar a ressurreição da emissora dia 1º/10 em novo endereço e com nova proposta. Exatos 18 segundos depois da tal reestreia, ao ver o Fiuk (saúde!) anunciando uma entrevista com Anitta Poderosa, desliguei a TV e fui silenciosa e solitariamente velar minhas saudosas lembranças do canal que tanto contribuiu para minha formação cultural…

Quando a MTV surgiu nos EUA, eu tinha 8 anos (mesma idade hoje da minha filha mais velha), e como gostava muito de TV e cinema, notava que referências à emissora pipocavam em toda parte – do logotipo subliminar num cantinho da cena à citação explícita em Money for Nothing do Dire Straits (“I want my MTV”). Enfim, me criei sonhando com o dia em que poderia assistir ao tal “canal que só passa música”, até que, em 1990, ele chegou. Em UHF, com nome e sobrenome: MTV Brasil (diziam na época “Emetevê”… cruzes!). A linguagem e o visual eram os mesmos da matriz gringa, mas ainda com pouco conteúdo local, o que os obrigava a preencher a grade com muitos clipes repetidos e extravagâncias como as primeiras temporadas do Saturday Night Live (episódios com John Belushi, Eddie Murphy, Steve Martin e outros em início de carreira… es-pe-ta-cu-lar!!!!).

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Curiosidade 1: como as TVs mais antigas não pegavam UHF, só conseguia captar o fraco sinal chuviscado pelo videocassete, turbinado por uma antena de arame de cabide forrada com Bombril. Curiosidade 2: os clipes que mais bombavam nas primeiras semanas eram Patience, do Guns and Roses, e Everything I Do (I Do It For You), do Brian Adams. Curiosidade 3: fui no show de lançamento da MTV Brasil no Parque Marinha em Porto Alegre, com shows de Nenhum de Nós (o representante gaúcho com clipe na programação) e Capital Inicial – este, em apresentação melancólica vaiada do início ao fim… bons tempos!

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Tudo era novidade interessante, do formato com VJs (os “irmãos mais velhos platônicos” da gurizada) anunciando os blocos de clipes com drops de informações sobre as bandas, às vinhetas bizarramente coloridas e sem o menor sentido. E durante o dia inteiro, um “copy+paste on fire” de clipes de bandas e artistas dos quais eu nunca tinha ouvido falar: Big Audio Dynamite (“Rush”), Marky Mark and the Funky Bunch (“Good Vibrations”), Snow (“Informer”), Dee Lite (“Groove Is In The Heart”), Jesus Jones (“Right Here, Right Now”), E.M.F. (“Unbelievable”), Queensrÿche (“Silent Lucidity”), Paula Abdul (“Straigh Up”), Kriss Kross (“Jump”)… bah, passaria o dia inteiro aqui e não lembraria de tudo! Claro, nada era obrigatoriamente bom (muito lixo e 95% “one hit wonders“, diga-se de passagem), mas tudo era definitivamente diferente e intrigante. E o combo se completava com as animações insanamente geniais (a.k.a. “desenho animado com palavrão” – O.o): Beavis & Butt-Head, South Park, Garoto Enxaqueca, Aeon Flux… puxa, enquanto escrevo e seco as lágrimas, vou relembrando e percebendo que é mesmo impossível colocar aqui tantas coisas bacanas, até porque já deu pra pegar o espírito da coisa e sacar como essa MTV Brasil que fechou as portas – cheia de apresentadores irrelevantes e programas patéticos – já não era mais nem a sombra daquela que foi nossa vitrine para o mundo na era pré-internet.

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Não vou reinventar a roda aqui dizendo que não faz mais sentido hoje em dia ficar esperando um determinado clipe passar na TV, tendo o Youtube à disposição pra ver o que eu quiser, onde e quando eu bem entender. Mas confesso que não percebi isso logo de cara, e minha decepção foi aumentando em PG ao longo dos anos com o volume crescente de blablablá de subcelebridades instantâneas no ar, com programas de auditório, reality shows nacionais, torneio de futebol entre bandas e tudo mais que não fosse a porra da música no tal “canal que só passa(va) música”. A cada dia, foi ficando mais difícil continuar assistindo à MTV, e só hoje percebo claramente que o único errado nisso tudo, de fato, era eu. Ou melhor, a minha geração…

EMKT_MTV_v3Não, obrigado (eu, hein…)

Emulando emocionantemente minha história, a Carolina – minha filha de 8 anos – viu nascer essa “nova MTV Brasil“… enquanto passava de fase no joguinho das Monster High no iPad (!!!). Touché! Zéfiní! Sem mais, meritíssimo! Quando eu tinha a idade dela, a TV e seus 5 canais abertos eram soberanos, cagavam regra, construíam a sociedade com a naturalidade de quem não tem concorrência à altura (jogar bola e andar de bicicleta com chuva era complicado, e à noite, proibitivo). Sou fruto desse momento, e querer 100% de música no “canal que só passa(va) música” é, pra esse ancião de 40 anos que vos escreve, cartesiano e lógico – tudo que os jovens mais abominam. E como daqui pra frente, este texto dependeria de antropologia, psicologia, linguística, marketing, sociologia e outras “ias”, paro por aqui. Quero que “MTV” pra mim seja sempre sinônimo de diversão, não de tese de mestrado. À nova MTV Brasil, boa sorte na conquista da atenção da minha filha, que graças a Deus ainda não faz ideia de quem seja Fiuk, nem Anitta Poderosa, mas já sabe, por exemplo, que foi numa premiação da MTV que o Bon Jovi criou o formato unplugged/acústico, entre mil outras histórias a serem narradas aos meus netos no futuro (bom, talvez eu tenha que criar um Vlog para eles verem no iPad…)

PS) Para refletirmos: no vídeo abaixo, os últimos 13 minutos da velha e já saudosa MTV Brasil – absurdamente mais significativos e memoráveis que os últimos 13 anos da emissora que, um belo dia, teve culhão pra mandar a gente desligar a TV e ir ler um livro… #clapclapclap

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