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A noite

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Engraçado como sempre me senti bem de noite. Desde pequeno, desenhando até tarde… como se ela me inspirasse! Por causa desta cumplicidade nem tinha ideia ainda de como a noite influenciava as mentes mais jovens. Demorei a sair, não concebia pedir o dinheiro suado de minha mãe para sair… para sequer beber. Até poder garantir minhas necessidades e meus vícios se passou algum tempo. Comecei a ser um amante da noite meio tarde em minha vida, já com 22 anos passados. Já era velho demais para cair no seu canto de sereia, mas inquieto o bastante para aceitar seus desafios. Topei alguns… abri mão de outros… me mantenho vivo neste meio termo.

De lá pra cá já se vão alguns anos! Mais encontrei do que perdi amigos na noite. Alguns bons o suficiente para terem seu lugar ao sol… já outros insistentemente me encontrando nos desmandos da madrugada. A noite me ensinou a beber, a chegar em mulher, a falar mal da luz e a conhecer seus cúmplices. Alguns só querem se esconder do dia, já outros querem se esconder da vida. Incrível como as pessoas se desnudam depois do pôr-do-sol. Mas ao contrário da crendice popular não são gatos pardos! São almas com todas as cores possíveis: o bege da apatia… o cinza da culpa… o vermelho da dor e até mesmo o dourado do amor e o azul da esperança!

Alguns dormem cedo demais ou vêem TV demais e envelhecem sob a luz sem sequer perceberem o imenso universo que se esconde em uma simples sombra de noite de lua cheia.

Amante, madrasta, ingrata, vadia… cada um rotula a noite como lhe convêm… mas ninguém diz que esta morta. Dizem que é na luz que crescemos, mas no nosso âmago temos a certeza que é a cada noite que renascemos.

Quando a referência vira o trabalho

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Dia destes vendo um anúncio para vaga de Diretor de Arte me deparei com a seguinte exigência:

“Buscamos alguém que não fique perdido quando cai a internet!”

Para quem é das antigas o pedido chega a ter um gostinho de vingança pois deixa claro que a internet acabou se tornando uma muleta ao invés de ser vista como ela realmente deve ser encarada: mais uma ferramenta – como outras tantas – no apoio ao processo criativo.

Desde sempre, estar atento e saber onde buscar as melhores referências é fundamental para ter um produto criativo diferenciado. Na criação pré-internet para se ter referências do que acontecia de importante fora do nosso quintal a coisa era bem complicada: era preciso importar anuários e revistas, assinar a Archive, conseguir as fitas oficiais de Cannes com o short-list dos filmes e ainda aproveitar aquela viagem (sua ou de algum amigo ou parente) para fora do Brasil para trazer quilos de material gráfico (desde folhetos e revistas até embalagens).

Hoje, toda e qualquer referência está a um clique de nós. Claro que isso é uma maravilha quando bem usado, mas com a facilidade veio também a dependência e a internet acaba se tornando a única ferramenta de referência para muitos criativos. Assim, algoritmos de relevância, trending topics e outras formas de categorizar a informação na internet acabam “ditando” e “padronizando” as referências que chegam até estas pessoas. Nestes casos “não saber procurar” acaba sendo pior do que “não procurar”.

Por isso é importante ter critério para escolher e usar as referências necessárias sem perder o foco. Em alguns trabalhos esta perda de foco acaba fazendo da referência o trabalho em si. E uma situação destas pode acontecer até mesmo em corporações com vasto know-how em sua área como aconteceu com a Rede Globo na abertura de suas duas últimas novelas das 21h, Amor à Vida e Em Família (clique nos nomes para ver uma análise detalhada de cada abertura no blogtelevisual.com). No primeiro caso se contrata um profissional para ele reproduzir exatamente um trabalho autoral anterior. Já no segundo a criação se baseou (sic) no template de vídeo comercial de uma empresa australiana, que pode ser adquirido por meros 30 US$ por qualquer pessoa. Isso para não comentar quando há malícia e o uso mal-intencionado de referências como mostrado no site www.logothief.com que pesquisa e compara exemplos reais do uso em 100% da referência, ou seja, escancara a “chupada”.

Por tudo isso achei interessante a exigência da agência, pois é preciso primeiro pensar o trabalho de maneira mais pessoal e independente, analisando as necessidades reais do briefing e criando uma espinha dorsal para o trabalho. Após se ter esta base fica muito difícil uma referência sobrepujar o conceito original.

No final das contas ainda acredito piamente que nada melhor do que um tempo a sós com a folha A4 e um lápis para dar o pontapé inicial em qualquer processo criativo.

O bom senso que falta na CBF

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“… informo que foi respeitado um minuto de silêncio pelas vítimas da tragédia das Filipinas!”
Francisco Carlo do Nascimento – Árbitro de Grêmio X Vasco

“… homenagem antes do início da partida através de um minuto de silêncio ao Sr. Elder de Lima Chagas, conforme solicitação do documento apresentado pela Federação Bahiana!”
Paulo Godoy Bezerra – Árbitro de Vitória x Cruzeiro

“… foi respeitado um minuto de silêncio em homenagem póstuma ao Sr. Mauricio Assunção, genitor do presidente do Botafogo!”
Emerson de Almeida Ferreira – Árbitro de Botafogo x Portuguesa

Acima apenas 3 das citações feitas em súmula por árbitros que atuaram na 34ª Rodada do Campeonato Brasileiro de 2013. Todas dentro de contexto em circunstâncias normais, mas o que ocorreu nos jogos da rodada foi tudo menos normal. Nesta rodada o Bom Senso F.C. promoveu uma manifestação pacífica a ser feita no ínicio das partidas e que consistia nos jogadores ficarem por 30 segundos de braços cruzados. Nada de discurso político, ações agressivas ou atos excessivos. Apenas a representação da força que um cruzar de braços tem.

Nada acontece.

E quem dirige o nosso futebol sentiu o baque. Sentiu a ponto de organizar uma campanha de desinformação e ocultamento envolvendo a Comissão de Arbitragem e as Federações Regionais para evitar que as manifestações do Bom Senso F.C. ganhassem reconhecimento oficial pelo menos em documentos da CBF. Assim todas as súmulas relataram as partidas como se nada tivesse acontecido.

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Ignorar e evitar que uma ação contrária aos seus interesses ganhe contornos oficiais é uma antiga tática que o atual presidente da CBF (e também antigo Governador Biônico da ditadura em SP) conhece muito bem, afinal manter o assunto a margem dos canais oficiais favorece o discurso de que ainda não há um posicionamento formal dos descontentes e que por isso não há como se posicionar perante suas propostas.

Assim os detentores dos canais oficias se colocam na posição de estarem sempre com as “portas abertas” para o debate quando o que querem na verdade é ganhar tempo e achar meios de sufocar o movimento contrário.

Para quem está no poder este tipo de manobra se torna essencial quando as pessoas que compõem o movimento contrário são peças importantes no cenário geral de seus interesses. Afinal não há futebol sem jogadores e a CBF sabe disso. Não há como substituí-los e enfrentá-los seria abrir um debate que não é de seu interesse e muito menos de sua maior associada, a Rede Globo, que é detentora dos direitos de transmissão do futebol no Brasil.

O que a entidade parece ignorar é que a informação já não depende mais exclusivamente de canais oficiais para sobreviver e ser passada adiante. A internet com seus fóruns de discussão, redes sociais e blogs ou meios de comunicação digitais independentes da mídia de massa replicaram a manifestação do Bom Senso F.C. a exaustão nos últimos dias. A manobra das súmulas deixa claro que os cartolas da CBF querem ganhar tempo a todo custo, pois faltam 3 rodadas para o fim do Brasileirão e eles acreditam que o movimento deva se esvaziar logo que começar o recesso de final de ano no futebol.

Mas até o calendário joga contra a CBF e sua pressa, pois as últimas 3 rodadas serão jogadas apenas aos fins de semana, deixando muito tempo para os líderes do Bom Senso F.C. se mobilizarem entre uma partida e outra. E o grupo já mostrou sua capacidade de mobilização até mesmo diante de fatos inesperados como a ameaça do árbitro Alicio Pena Júnior de dar cartão amarelo a quem cruzasse os braços em protesto no jogo de São Paulo X Flamengo.

O que se viu foi histórico.

Que povo é esse???

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Sim! O Brasil é grande e pode ser potência mundial… um dia, talvez.

Antes disso temos que mudar a base que mantém a nossa sociedade entre as mais corruptas do mundo: nós mesmos.

É preciso saber que a pessoa que é eleita para um cargo público é a mesma que era antes disso. Não adianta cobrar do ” Senador Fulano ” honestidade, integridade e ética se o ” Cidadão Fulano ” já não as tinha. Se o ” Cidadão Fulano ” enganava no troco, subornava o policial, procurava levar vantagem em tudo, cobrava comissão de 20% e não queria nada com nada ele vai continuar assim após a eleição. E, infelizmente, o “Cidadão Fulano ” é a maioria entre os quase 200 milhões de brasileiros e eles só levam em conta um critério no seu dia-a-dia: defender o seu custe o que custar, mesmo que isso implique em faltar com a ética, promover falcatruas e fazer uso da velha “Lei de Gerson”.

A corrupção não é mais restrita aos políticos e empresários. Ela já é endêmica e está em todas as faixas sociais. Basta prestar atenção: é difícil passar um dia em que não vejamos ou tomemos conhecimento de alguém, até mesmo um conhecido nosso, levando vantagem indevida em alguma situação. E não é apenas com os outros, nós mesmos temos as nossas falhas, nossos falsos atestados médicos, as “colas” na faculdade, os downloads piratas… e por aí vai. A nossa degradação moral como povo corre a olhos vistos e muitos se perguntam onde é que mudamos, onde começamos a trilhar este caminho? De quem é a culpa?

Os militares jogam a culpa na ascensão da esquerda populista ao poder. Os sociólogos veem o motivo no crescimento econômico de uma classe social que historicamente não teve acesso à educação formal e à cultura. A esquerda culpa o neoliberalismo. Enfim, dedos para apontar um novo culpado a cada dia é o que não falta.

“No Brasil quem
tem ética parece anormal
!”
Mário Covas

Infelizmente o “Brasil Malandro – onde tudo se dá um jeitinho” é anterior a tudo isso. O que estamos vendo é apenas o ápice de um longo processo histórico. Hoje chegamos ao luxo de quase eliminar a figura do corruptor, afinal ele vai se tornando desnecessário na medida em que quem se elege já procura por si mesmo os meios para desviar alguma verba. Não é mais necessário alguém te incentivar a fazer algo imoral ou ilegal. Está no nosso DNA.

E o acesso a informação e a velocidade com que estas situações se propagam apenas nos permitem acompanhar as mazelas morais do Brasil quase em tempo real e dizer que apenas seguimos o exemplo que vem de cima é purista e covarde demais.

A cada nova eleição analistas políticos nos alertam para cobrarmos de quem elegemos os valores éticos e morais que um cargo público exige, mas como fazer isso se quem foi eleito é apenas o reflexo de quem votou? Será que aguentaríamos esta autoanálise? Teríamos a coragem de nos olhar no espelho e ter a lucidez de nos vermos como realmente somos como povo e reconhecer que no fundo somos muito parecidos com os nossos políticos?

Se aceitássemos este desafio este seria apenas o inicio da caminhada para repararmos décadas de permissividade e corrupção. Só depois disso é que teríamos a legitimidade de querer ocupar nosso lugar no mundo.

Não era para ser de GRAÇA???

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Ontem li a equação acima pela primeira vez numa faixa em um Posto da Shell, e como tantas outras promoções que vemos por ai acho ela descabida e até mesmo desonesta.

Pagar pelo brinde! Grande sacada do Diretor Financeiro com o apoio do Diretor de Marketing. Só pode ser isso.

E mesmo correndo o risco de ser tachado de velho ouso lembrar que na minha época bastaria abastecer o carro com os tais 25 litros de gasolina para se ter direito ao brinde, sem qualquer ônus a mais, simples assim. E se o tal brinde fosse parte de uma coleção, tanto melhor, a volta ao posto de gasolina estava garantida dali há poucos dias. Afinal quem não gostaria de ter sua coleção completa. É só não complicar que todos querem.

Eu guardava as tampinhas de refrigerante para trocar por copos da Pepsi-Cola (se chamava assim na época) ou por garrafinhas em miniatura da linha Coca-Cola, que se bem me lembro eram trocadas por 2 tampinhas cada garrafinha e 5 ou 6 tampinhas pelo mini-engradado.

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E falando a verdade, até já paguei por brinde sim. Na primeira edição dos io-ios da Coca-Cola no Brasil (lá nos idos dos anos 80) para se ter os translúcidos (os mais legais) tinha que se dar uma quantia em dinheiro, mas era uma valor quase simbólico. Os outros mais simples, com borda branca, se trocava sem precisar de dinheiro.

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Mas hoje as empresas esquecem a razão final do brinde que é ampliar a sensação de vantagem na compra de determinado produto. Mas como ter esta sensação sendo racional? É só fazer a conta: são 4 carros na coleção, ou seja 4x R$ 14,90 = R$ 59,60,  mais o custo do combustível em si (100 litros x R$ 2,78/litro em média = R$ 278,00) chegando ao valor de R$ 378,60.

Não tem como. Na ponta do lápis não há como achar que se sai ganhando pagando por um brinde.

E quem trabalha em algum ramo de comunicação ou de marketing sabe que o valor unitário do brinde se dilui na proporção da quantidade produzida. Assim R$ 14,90 por um Batmóvel beira o ridículo. A Shell deve ter pago algo em torno de R$ 2,00 ou R$ 4,00 cada. E olha que tô chutando alto. O resto é lucro.

Mas no frigir dos ovos só existem empresas que fazem estas promoções porque existem consumidores que se sujeitam a pagar, seja pela vã ilusão de exclusividade do brinde ou até mesmo algo tipo insanidade temporária. Vai saber!

A  prática de se cobrar um determinado valor em dinheiro pelo brinde não é nova e veio pra ficar. Muitas vezes elas existem apenas para dar significado ao lado mais promocional de um projeto de marketing. Só continuo achando que promoções assim são apenas mais uma forma imoral da empresa lucrar em cima do consumidor sem ele ter um benefício na mesma proporção em troca.