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O triste, difícil e incerto fim de uma paixão

[Texto publicado originalmente no site Perdi Essa Aula]

Ao término da minha recente mudança de apartamento, tive uma revelação surpreendente: os discos de vinil morreram. O chato foi ter constatado isso apenas após ter gasto os tubos num móvel feito sob medida para caber o toca-discos e minha coleção de vinis (147 unidades, devidamente catalogadas, emplastificadas e frequentemente desempoeiradas). Tudo bonitinho em seus novos lugares, hora de testar se a parafernália de cabos ficou funcionando: pelamordedeus, gente… era assim que se ouvia música na década de 80??? Bah, tá louco: o que menos se escuta é música, em meio à chiadeira ensurdecedora, aos “plécs” e “plócs” da agulha atropelando os ácaros adormecidos entre os sulcos. Aliás, tive inclusive de retomar o hábito de colocar uma moeda em cima do suporte pra fazer peso e passar por cima dos arranhões invisíveis na bolacha (diziam antigamente que era só passar casca de banana no disco – seria esse absurdo um tataravô dos hoax modernos, tipo apagar o arquivo com ícone de ursinho da pasta system32 do Windows?). Enfim, que experiência deprimente… justo eu, que defendi o vinil com todas as minhas forças na chegada do CD ao grande público em 90 e poucos. Eu – que adorava as capas enormes, a função de alternar do lado A para o lado B a cada meia-hora, que transformava os encartes em pôsteres colados na parede do quarto – tive finalmente que dar o braço a torcer: não há, hoje em dia, o menor motivo pra ouvir música em discos de vinil – nem mesmo o histórico Sgt. Pepper´s, que comprei num sebo pra ouvir “no clima” as loucuras revolucionárias dos Debítous. O preço do romantismo é alto: sofrimento, perda de tempo, frustração amplificada…

Mas o paradoxo vem agora: do jeito que as coisas vão, em ondas de revival e moda retrô pra tudo que é lado, como posso aposentar o toca-discos, se a qualquer momento o vinil pode inexplicavelmente voltar a ser febre ou mesmo declarado como a solução derradeira antipirataria, revertendo a marcha e ressurgindo das profundezas do esquecimento para novos dias de glória? Há pesquisas que comprovam que as vendas de vinis estão aumentando progressivamente lá fora, sem falar que não tem nada mais hype para uma banda do que lançar seu mais novo trabalho em formato litrão (“pen drive? Aff… so 2000´s, baby!“). Louco isso, né? Especialistas em Marketing e em Comportamento do Consumidor saem no tapa em momentos como esse, em que teorias acabam nocauteadas pela prática. Seria como, apesar do reinado absoluto e definitivo do Teflon nas cozinhas modernas, o Bombril voltasse aos 95% de domínio do mercado nacional de limpeza de panelas. Pois eu não duvido de nada, ainda mais depois que deram um jeito de resgatar com tudo os anos 80 – o que, pra mim, era o desafio supremo em termos de moda/tendência, tal o ridículo e exagero que foi tudo naquela época, mas que parece ter servido como uma luva para a afirmação da atual “geração colorida” (ATENÇÃO – o Ministério da Saúde adverte: o excesso de cores nas imagens abaixo pode causar convulsões).


Falando sério: há tempos a evolução deixou de ser algo cartesiano, lógico e, por que não dizer, sensato. Da fita VHS para o DVD, em termos de qualidade, durabilidade e facilidade de armazenamento, até fez algum sentido. Mas o que foi a treta homérica envolvendo o Blu-Ray, numa guerrinha de fabricantes e formatos tão agressiva que não só intimidou e encucou os consumidores como atrasou a logística de distribuição e aceitação do produto, praticamente natimorto com a chegada do 3D e outras tecnologias (efemeramente) mais interessantes. Tá tudo de cabeça pra baixo, minha gente! Que sentido faz, por exemplo, ficar segunda-feira à noite uma hora na frente da TV aturando o CQC, se o “Top Five” (única coisa que presta no programa – #prontofalei) pode ser visto direto  no YouTube no horário que você quiser? Radiohead lançando CD através de download remunerado conforme o gosto do freguês… nossa, pegaram o modelo das Cinco Forças de Porter, tacaram no liquidificador e sabe-se lá hoje em dia de onde podem surgir novos entrantes, de que época vêm os produtos substitutos, qual o real poder de barganha do consumidor… marqueteiros de plantão: TREMEI!

O negócio é ficar atento, acompanhando tudo de perto sem conceitos demasiadamente consolidados, pra não ser cruelmente atropelado pela evolução, como foram os pobres ácaros do meu saudoso primeiro vinil, Hollywood Hits Vol.1!